EM PALCO COM LUÍS FERNANDES

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EM PALCO COM LUÍS FERNANDES

SINOPSE

Este sábado estamos "Em Palco com..." Luís Fernandes.

Nascido numa família de músicos, Luís Fernandes desde cedo esteve ligado à música e é acima de tudo Músico mas também é ator, gestor, criativo, produtor entre outras facetas relacionadas com as artes de palco.

Foi cofundador e membro da comissão instaladora da d'Orfeu Associação Cultural e desde 2015 assume a Direção Criativa da referida Associação.
 


Daniel Madeira:

Olá Luís Fernandes, bem vindo ao nosso palco, bem vindo ao Centro de Artes de Águeda e  obrigado antes de mais em teres aceitado o nosso convite em participar nesta nossa rubrica.

Vou ler uma pequena biografia tua e depois vou lançar-te a primeira pergunta e dar início a uma agradável conversa, de certeza,

Nascido numa família de músicos, Luís Fernandes desde cedo esteve ligado à música, aos instrumentos tradicionais, às bandas filarmónicas e grupos folclóricos e por isso podemos dizer que acima de qualquer coisa, Luís Fernandes será um  músico.  

Em 1994, frequenta o Curso Complementar (8º grau) no Conservatório de Música de Aveiro e onde também,se licencia, em Ensino de Música na Universidade de Aveiro (2000).

Pelo meio, nasce a d’Orfeu Associação Cultural, mais precisamente em 1995, tendo sido um dos cofundadores e membro da comissão instaladora. Foi também coordenador-Geral (desde 2000 a 2014) e onde, desde 2015 assume a Direção Criativa da mesma associação.

Luís, és licenciado em Ensino de Música pela Universidade de Aveiro, como referi, e músico autodidata de instrumentos tradicionais portugueses bem como ator. Pergunto-te, numa primeira instância, quais foram as inspirações do jovem Luís para se tornar ele ser digamos multifacetado no campo artístico?

 

Luís Fernandes:

Eu nasci, como disseste e bem, numa família de músicos, e o berço natural em que a coisas aconteceram, levaram-me a caminhos que não escolhi. Eu chego hoje a um momento em que dizes que sou ator, nunca trilhei um caminho consciente disso e também não acho que seja, mas é certo que enquanto músico de formação, fui procurar ferramentas e fui também procurar de uma forma mais ou menos inata, pelas experiências que fui acumulando, tentando ser ator, mais do que tentar ser ator, tentar não ser só músico, e isso é um gatilho que os músicos, uns têm ou não têm, uns ficam com as palas no papel, na partitura, e outro tentam saltar disso para fora. O meu berço, efetivamente, levou-me para essas experiências para ter muito mundo, para procurar e para me fascinar com outras influências e foi dessa forma que eu, também dizes aí no inicio nessa biografia, de uma bela pesquisa que fizeram certamente, que até 2014, segundo me lembro sou coordenador geral e depois passo a ser diretor criativo, vamos cá, na verdade eu sempre fui diretor criativo, mas tinha uma abrangência mais lata ao nível da gestão de uma estrutura que cresceu e eu pensei, eu e outros, e eu chegar a diretor criativo não é evoluir, é regredir, é eu conseguir destinar-me às funções criativos, quando até aí, que de certa forma ainda acontece mas já menos, eu tive que ser gestor, portanto eu nasci numa família de músicos, aprendi o que é ser artista, percebi o que é o bastidor, e portanto, eu toco, eu canto, eu produzo, eu componho, eu arranjo, eu giro, e aprendi tudo o que é o métier das artes de palco, tanto na transdisciplinaridade da música e das outras artes como é estar no palco e trabalhar para o palco fora dele.

 

DM:

Exatamente.

Já falamos aqui várias vezes da d’Orfeu, que tem quase como uma relação simbiótica com a tua biografia, como é que surge a d’orfeu?

 

LF:

Surge porque os meus irmãos têm mais 8, mais 9 e mais 10 anos do que eu, os meus irmãos rapazes e todos músicos e nessa sua altura de juventude a querer desbravar novos caminhos, vindo todos nós e eu da forma mais inconsciente, do tal seio da cultura popular, do folclore, do cancioneiro infantil, da orquestra típica, tínhamos de facto algum mundo já, mais do que os colegas e isso não posso negar, e como à procura de um formato onde pudesse caber ideias que não cabiam nas coletividades onde já pertencíamos e surgiu assim a d’Orfeu, surgiu primeiro, por exemplo, para ser uma escola de música de instrumentos tradicionais, coisa que nas tocatas dos grupos folclóricos é tido como o elo mais fraco, é tido como “o gordo vai à baliza”, o que não sabe tocar toca bombo, e quem diz bombo há época, isto é… havia por exemplo o estigma dos próprios instrumentos, da concertina, do cavaquinho, etc. coisa que já muita renovada, eu lembro-me de uma conversa que tiveste aqui há pouco tempo, eu estive a consumi-la avidamente com o O GAJO, com uma viola típica portuguesa, a campaniça, que esteve praticamente em vias de extinção, não tanto como os nosso instrumentos que tocávamos no cancioneiro infantil de Águeda, mas esse estigma ter que ser destruído, e esse destruição foi através de um projeto chamado d’Orfeu, em que pudemos dar contemporaneidade, vanguarda, a práticas que eram tidas como menores e é dessa forma que surge a d’Orfeu.

 

DM:

Exatamente. E a d’Orfeu que tem 25 anos e que surge e foi criada com o propósito “aumentar o nível cultural da comunidade cultural”. Ao mesmo tempo já podemos constatar uma evolução além fronteira da própria d’Orfeu ao longos dos anos. Não te vou perguntar se achas que esta missão já está de alguma em prática, porque certamente estará, mas que balanço é que fazes, como é que achas que a comunidade local reage e reagiu e poderá vir a reagir a este crescimento cultural e a esta aposta cultural que é a d’Orfeu e que representa a d’Orfeu?

 

LF:

Essa pedra no charco inicial, tem o seu objetivo consumado, desde muito cedo, e não estou a dizer que a partir daí se vive dos créditos, mas a grande machadada, a grande abertura de horizontes à comunidade, aos outros agentes locais e até aos poderes que podem estimular mais, ou menos, aquilo que vamos fazendo já é uma banalidade sem menorizar, utilizando o termo, já é normal Águeda viver dessa forma, com novos projetos, com novas influências e sempre com uma abertura de espirito que não existia há época e foi só há 25 anos, mas não existia, o que era comum era uma prática repetitiva, museológica, cristalizada, e se não for assim não está bem e nós achámos que era possível de outras formas, portanto esse abrir caminhos, nós sentimos na pele, não só as resistências mas também a conquista que foi “olha uma grande auto estrada onde desenvolvimento cultural”, e ela foi muito bem aproveitado e não foi necessariamente só por nós. 

Depois a sobrevivência e a estabilidade, a sustentabilidade, a longevidade de um projeto com uma estrutura artística que não é pública, é privada, é uma associação sem fins lucrativos, com os seus sócios, com os seus fiéis amigos, com quem cria uma cumplicidade  para apoiar a causa e para usufruir daquilo que a d’Orfeu vai fazendo, é uma tarefa muito mais complicada, muito mais complexa, entra aí a gestão de muito mais coisas, quanto mais não seja de recursos humanos, de financiamentos, de até em termos físicos de instalações, como temos agora uma situação muito débil na atualidade ao fim de 25 anos, esse processo, esse sim é mais desgastante e não é tão, digamos que não é tão entusiasmante, dá muito trabalho, e chegamos aqui de peito feito com aquilo que foi possível fazer para uma estrutura que tinha tudo, não digo para correr mal, mas para não se aguentar depois de consumado e cumprido o seu desígnio inicial que é, vamos cá "atirar uma pedra ao charco” e fazer splash, e fez.  Agora o esforço é fazer splash muitas vezes e ao longo dos anos, e já estamos a falar de duas décadas e meia, convenhamos que não é propriamente fácil, nos sentimos na pele... já não esperar mais de novo ou de melhor da d’Orfeu, quando já deu tanto à comunidade, e essa é a superação interna e é também a tentativa de gerir a expectativa externa. 

 

DM:

Exatamente, e vocês compra isso em vários fragmentos, uns mais visíveis, outras não tanto, mas vou começar, e porque tu referiste isso mesmo que a d’Orfeu aparece uma primeira instância como espaço de formação, vocês atualmente têm a Escola de Palco, por exemplo, mas fomentam muito a área da formação e da criação. Podes falarmos um bocadinho sobre esta vertente da d’Orfeu?

 

LF:

Sim, nasceu com uma escola, com o meu disse, uma escola de música de instrumentos tradicionais, depois foi várias coisas ao longo destes anos todos, depois chamou-se emTrad’, já uma aglutinação deste conceito, ainda o mesmo, depois passou para d’Formação (o apóstrofo como marca distintiva e semiótica da associação). Esta d’Formação já pretendia ser mais contemporânea e mais transversal, e neste momento voltámos a encontrar um mote, muito sólido, chama-se Escola de Palco, e tem a ver com trabalho das artes de palco mas na sua relação, na sua fusão, coisas que já vínhamos fazendo, não só nos espetáculos que criamos, nas nossas criações, como da programação nomeadamente O Gesto Orelhudo, que tem nos últimos anos palco aí nesse sítio onde tu estás. Esta programação d’O Gesto Orelhudo, ou as criações próprias, têm desenvolvido uma matriz músico teatral, de relação da música e do teatro, em que se confunde, lá está como me apresentaste a mim como músico e ator, que não sou, sou músico, embora procuro não ser só músico, há muito trabalho desse em termos nacionais e internacionais de artistas que não são já só uma coisa, e esta Escola Palco e nomeadamente o curso principal que é o curso Teatrúsica, é criar artistas, não estamos a dizer que serão profissionais, para isso há outras instâncias, mas os alunos, os formandos, desta oferta que a d’Orfeu tem atualmente, pretende-se que tenham uma visão aberta, seja para virem a ser artistas profissionais ou para serem simples espetadores, e aqui eu quero retirar aqui a força do simples, simples espetadores de projetos artísticos em que entendam que já não há fronteiras e devem ser esbatidas mesmo entre as artes, e portanto daí o curso Teatrúsica na atual Escola Palco. Por outro lado, na criação, aí sim podemos estar ainda à procura de um desígnio maior que ainda não foi obtido ao longo destes anos, a d’Orfeu tem dezenas e dezenas e até centenas de espetáculos próprios de criações próprias estreadas e que entraram em digressão, eu fiz várias delas ao longo da minha relação que é umbilical como se sabe com a d’Orfeu, mas muitos outros companheiros encontraram na d’Orfeu o berço para o seu projeto criativo, para os seu espetáculos, para o seu concerto, para a sua peça de teatro etc. são mesmo muitas e portanto indo ao site, eu não conseguiria quantificar neste momento quantas são. Sucede que nunca foi a d’Orfeu uma companhia profissional, foi sim uma estrutura profissional para dar caminho a isto, para dar suporte a isto, mas o conceito mais convencional de que há uma companhia profissional, isto é, os seus criativos e intérpretes: músicos, atores, o que quer que seja, são profissionais para fazer aquilo, não é para fazer gestão, não é para fazer produção etc. ainda não atingimos, eu sou o primeiro exemplo, e agora se quisermos entrar aqui num patamar mais pessoal, sou o primeiro exemplo de que é isso ainda não se atingiu, eu em 2015, houve aqui um paradigma que pelo menos em termos formais quis-se transmitir a comunidade que é, há uma direção executiva, há o lado de gestão e há uma direção criativa, há um indivíduo, que sou eu, que sempre esteve no principal papel de gestão, e que haveria de destinar essas energias ao desenvolvimento de uma companhia profissional se quisermos, essa ainda não se atingiu e confesso eu, sem problema nenhum, porque é a nossa luta interna e é também aquilo que a d’Orfeu quer para o futuro é que da mesma forma que profissionalizou e com tudo o queixo terá exigido, e dá para compreender, qualquer pessoa que assista, como é que uma associação, este tipo de estrutura, consegue profissionalizar-se ao fim de tantos anos com uma equipa para fazer toda a gestão cultural de quatro festivais, oito criações em digressão, e uma Escola de Palco, se quisermos resumir, fazê-lo da mesma forma para uma companhia profissional de criativos, de artistas, de compositores, de cenógrafos, etc. etc. etc.

 

DM:

Exatamente, e destacando esses quatro festivais de que falas, já agora fazendo a ponte, portanto falamos do Festival i, do festim, d’O Gesto Orelhudo e do Outonalidades. Luís queres falar-nos um bocadinho sobre cada um deles, talvez sobre a importância dele no panorama total ou no horizonte total que a d’Orfeu compõe.

 

LF:

É uma pergunta fácil. Quase diria que tenho uma cassete para essa.

 

DM: 

Imagino que sim.

 

LF:

Há dois deles que têm uma âncora em Águeda. Nasceram em Águeda são festivais que acontecem só aqui e foram pensados no contexto da nossa comunidade, o Festival i e O Gesto Orelhudo, O Gesto Orelhudo é mais antigo, não sendo o mais antigo da d’Orfeu mas é o primeiro festival de marca própria, surgiu em 1999, numa fase em que a relação com a autarquia não era propriamente muito cúmplice e tivemos que vencer resistências importantes ao nível do protagonismo cultural nesta terra, e O Gesto Orelhudo foi um desses momentos, aliás a primeira edição tem uma ação dos decisores políticos de mandar arrancar cartazes da primeira edição d’O Gesto Orgulho, por exemplo, foi de facto um sucesso na relação com o público e com a comunidade e vai, olha confesso que nem sei dizer em que número de edição, quase a 20.ª, se não for já na 20.ª, porventura tens aí tu essa informação.

 

DM:

Sim, até tenho que vai na 19.ª, em 2020, que aconteceu em outubro de 2020.

 

LF:

Não ando muito longe.

Desde 2006, também nessa relação que depois se criou estratégica e de missão municipal, em coprodução com o município, passou a ser consecutivo, coisa que nos primeiros seis anos foi muito interrupto, houve em 1999, houve 2001, depois houve em 2002 e depois 2005 só, em 2006 começa a ser ininterrupto até hoje. Esse festival teve vários palcos na cidade, inventou vários palcos na cidade, muitos anos, e as pessoas têm essa ideia, dessa mística, de uma tenda no quintal do espaço d’Orfeu, mas também foi O Gesto Orelhudo que fez pela primeira vez uma utilização cultural da junta  dos vinhos, da antiga junta dos vinhos ,foi O Gesto Orelhudo que fez uma primeira utilização cultural, digamos que mais social, mais aberta à comunidade, do recinto da casa do adro, agora regenerado mas já tem aquele anfiteatro natural já desde essa altura em 1999 a primeira edição foi aí, e desde há 4 ou 5 edições, não consigo precisar, desde que existe o Centro de Artes, encontrou o seu palco aí, onde tu estás, porque embora muita gente ainda se pergunta “Epá, perdeu-se a magia etc.”, há muitos espetáculos que as pessoas adoraram e que têm certamente na cabeça, que aconteceram aí no Centro de Artes, em função de condições técnicas e logísticas que são impossíveis de implementar numa tenda e num quintal, basicamente só por isso. Este é um dos festivais de facto, e contei aqui resumidamente a sua história da sua implementação na comunidade.

O outro é o Festival i. Nasceu em 2009, num momento de viragem em termos de propostas criativas da d’Orfeu, que não teve só o Festival i, teve o festim também em 2009, que falaremos a seguir, mas o Festival i foi um festival para o público infantil e familiar, sabendo nós, já tínhamos 14 anos de existência e uma escola pujante, sentíamos que é preciso também palco para a escola, não é palco para a escola enquanto artistas necessariamente, palco para a escola enquanto espetadores, uma escola de espetadores no fundo, esse festival é para o público mais jovem, mais novo e para as famílias porque sentimos uma coisa curiosa ao fim de 14 anos, como eu disse, os primeiros espetadores da d’Orfeu, de tudo o que fazia, na sua casa dos 20, 30, 40 anos, passado 14 anos já tinham filhos e foi um momento de necessidade de transmissão do testemunho, dessa vivência das propostas da d’Orfeu, o Festival i foi sempre consecutivo, ininterrupto e já irá na, diz me tu, quantas edições tem?

 

DM:

Pois essa não tenho aqui, essa informação não tenho aqui.

 

LF:

Mas certamente 12.ª, essa e O Gesto Orelhudo, que são as tais que tem âncora em Águeda, em ano de pandemia em 2020 não interromperam, O Gesto Orelhudo foi feito em outubro entre os pingos da chuva, entre os pingos da pandemia…

 

DM:

Era a minha próxima questão, já agora, permite-me o parênteses, mas continua.

 

LF:

E o Festival i não se fez no formato habitual, mas fez-se o drive i, uma recauchutagem, é um termo bom para o drive i, uma recauchutagem que nos inspirou também bastante para pensar tudo isto. Falta ainda falar do festim e do Outonalidades, não sei se queres intrometer a tua pergunta sobre o formato do Festival i! no passado ou se vamos já para o festim e para o Outonalidades.

 

DM:

Como o Outonalidades e o festim têm uma projeção mais fora de Águeda, digamos assim, podemos aproveitar para fazer aqui esta pequena visita ao reduto da pandemia, que mais tarde ou mais cedo iria aparecer na nossa conversa, e iria falar exatamente disso a 19.ª edição do festival O Gesto Orelhudo sofreu com a pandemia, foi afetada com a pandemia, aconteceu aqui em outubro de 2020, também falas da própria adaptação que foi feita ao festival i!, e eu queria perguntar-te isso mesmo, como é que as coisas foram pensadas, como é que esta adaptação surgiu, que nos fala-nos um bocadinho desta experiência, porque em tantas emoções nunca houve uma pandemia em nenhuma delas, foi a primeira.

 

LF:

É um facto.

Uma coisa é certa, em todas as edições sofremos uma pandemia qualquer, ou era de financiamento, ou era de flutuações da própria expetativa do público, da forma como a d’Orfeu se relaciona com o público, ou as tais necessidades de readaptação ao um espaço novo, eu esqueci-me há pouco, mas O Gesto Orelhudo já foi na casado adro, na junta dos vinhos, no quintal, no auditório de Recardães, utilizou muitas vezes o CEFAS como segundo palco, utilizou muitas vezes a rua como segundo palco, utilizou o cine-teatro S.Pedro muitas vezes, houve uma edição em que teatro São Pedro foi transformado em duas salas, uma era a plateia e outra o balcão…

 

DM:

Eu recordo-me.

 

LF:

Esses anos todos de edições d’O Gesto Orelhudo, viveram sempre de alguma necessidade, agora não quero abusar da pandemia e dizer que foi por causa da pandemia, mas houve sempre uma necessidade qualquer de o repensar, e dessa forma, repensar o de 2020 não foi muito diferente, embora tivesse as suas vicissitudes, primeiro aquele fantasma muito poderoso que é as regras da DGS, não é, e depois nós jogarmos com a psicologia e com o que é que vai ser a predisposição do público, porque é também uma incógnita insondável numa situação destas, percebemos que não conseguiríamos, do ponto de vista técnico e  logístico, no Centro de Artes atenção, eu falei há pouco que na tenda já havia dificuldades, portanto seria absolutamente impossível pensar no quintal ou numa tenda fazer O Gesto Orelhudo em tempo de pandemia, no Centro de Artes, cuja logística, e isso nós temos que agradecer assim de coração aberto, que a equipa do Centro de Artes mima de uma forma absolutamente brutal e traz-nos a casa qualquer artista qualquer estrutura que aí trabalhe convosco, e portanto tendo de barato que o pensamento de natureza de higienização, de acolhimento sanitário etc. estava absolutamente assegurado, não pensamos em absolutamente nada disso, pensamos sim foi que, não poderíamos fazer dois espetáculos numa noite, quando o normal era fazer três, e portanto foi só um espetáculo por noite, para cumprir com desígnios de entradas, circuitos, saídas etc. e aí não ter que haver higienizações intermédias, segundo teríamos que recorrer ao espaço exterior, e aí sim inventámos um bocado, aí julgo que fomos mais uma vez pioneiros, que foi utilizar toda a redondeza do edifício, as costas, a passagem por trás, etc. pessoas que ainda não conheciam sequer o que é ali existe, um pequeno anfiteatro relvado que ali existe na lateral, para a estrada que vem de cima, isso também tudo foi utilizado na lógica de não tendo feito em maio o Festival i! da forma que era costume, queríamos também preservar n’O Gesto Orelhudo um momento, um segmento, em que aquele que não vem à noite ver um espetáculo, diurno, e fizemos um fim-de-semana com muita atividade aliados tório aí ao final da tarde e o resto com uma vertente lúdica de circuitos de experimentação, circuitos de animação que foi muito interessante, se quisermos pensar se funcionou bem ou se funcionou mal é muito relativo, é muito discutível, houve público é um facto não deixaria de haver também não houve tanto como pensaríamos, mas só o estímulo, de trabalhar esse segmento que foi o que eu mais trabalho a fazer e também aquilo que justifica existir uma estrutura que vive 24 horas a pensar como é que vai fazer determinada coisa, portanto e O Gesto Orelhudo viveu neste momento, nesse momento de outubro,  em que curiosamente havia e houve no fim de vários espetáculos notícias permanentes de que determinado município no outro ponto do país estava a cancelar toda atividade cultural e coisas que tais, portanto também nos deu algum orgulho perceber que nós em Águeda, e eu digo isto declaradamente nós não foi só a d’Orfeu,foi o Centro de Artes, a Câmara, com quem também vive o festival e que seja de Águeda ou não, conseguiu marcar esse momento de forma indelével. 

E o Festival i! que antes tinha sido reconvertido, recauchutado como eu disse num Drive i! foi também outro momento em que tivemos que fazer plano A plano B plano plano C, plano D, e depois nenhum deles foi, foi outro qualquer, esse é o panorama em termos pandémico do pensamento cultural, é fazer muitos cenários e depois não ser nenhum desses que de facto se concretiza, nós fizemos muitos cenários, mesmo muitos, tivemos concretização, menos do que é costume, mas com muito mais energia posta do que era comum.

 

DM:

Exatamente, e aproveitando que estamos então neste campo da pandemia, sabendo que d’Orfeu tem também reagido de outra forma e de outros modos a ela mesma, falamos por exemplo de uma websérie que vocês lançaram pergunto ao Luís quais é que tem sido as ferramentas ou instrumentos que é a d’Orfeu tem  utilizado para combater estes efeitos da pra demia numa cultura já por si frágil em termos estruturais não é.

 

LF:

Levantas aí a questão da webserie. Fizemos duas webseries, uma no primeiro confinamento chamado “Telefonema à d’Orfeu” e foi um pouco aproveitar a pandemia e não poder ter uma relação direta com o público foi mostrar o bastidor, foi mostrar o gabinete, e portanto uma dupla, neste caso as duas webseries, uma dupla que temos e um deles é o Zé Pedro Ramos, ele é ator e clown, é um dos nossos formadores é o coordenador pedagógico da Escola do Palco, fez essa primeira websérie que era ligar a cada um de nós, ao Luís, à Ana Flores,  à Adriana, à Evelina, ao Abade, no fundo suscitando e revelando aquilo que são as nossas conversas cotidianas e que ele e se tornaram objeto de partilha, e isso foi interessante porque se calhar em condições normais não aconteceria as pessoas terem um oráculo para dentro da d’Orfeu, para dentro paredes de tudo o que se lá faz, dos planeamentos, dos telefonemas, das fotocópias, das candidaturas, do diabo o sete. Esta segunda websérie, com o mesmo ator e com a Cori Ollett, esta dupla tinha estreado começado a fazer aí na escolas e nos infantários do concelho, nesse fevereiro, março de 2020, um espetáculo a propósito… a aquecer a máquina para os 25 da d’Orfeu se chamava e que se chama “Orpheus viu-se grego”, portanto pegar no deus grego que foi patrono e que ajudou a dar o nome à d’Orfeu, e essas duas personagens têm feito esta segunda websérie, aí já falando dos temas da atualidade local ou não, mas que fazem a d’Orfeu estar, ir ao encontro, ou estar em confronto, bom ou mau, com a política, com a sociedade, com a saúde, com os temas com que nós vivemos. Começou logo com um assunto que tinha a ver com as nossas instalações e com a nossa crela diplomática com o senhorio, que são os bombeiros, convido a ver esse episódio primeiro do “Orpheus viu-se grego” e depois percorre uma série deles, deu oportunidade por exemplo, de fazermos episódios que tem uma vertente promocional, publicitária digamos assim, mas que não é, é um produto artístico na casa dos nossos mecenas com os quais nunca podemos fazer nada ao longo de tantos anos, mais do que por um logotipo no cartaz do festival e portanto os episódios na Sociedade Comercial do Vouga ou na a ATZ, assumem de facto aqui um papel e d’Orfeu nunca teve essa capacidade, esse espaço, esse tempo e esse espírito para pensar, vamos fazer uma coisa com os nossos mecenas. Passa também por outras questões da atualidade do local em ano de eleições, ou do financiamento à cultura e dos apoios aos artistas e da consignação de 0,5% do IRS às associações culturais,  foi uma websérie que permitiu tudo isso, por um lado é continuar a dar trabalho aos nossos, por outro é continuar a manter uma relação com o público, sabendo nós que não é o mesmo público é o outro, e porventura estamos a conquistar ou a seduzir um outro público que nos apanha por acaso e que depois se torna cúmplice para aquilo que vínhamos a conseguir fazer no futuro, e por fim demonstramos também, não é por demonstração, nós temos um impulso de nos mostrar vivos e nós temos essa missão, nós temos, não digo um privilégio, mas um alívio em termos de equipa profissional, estarmos seguros com os apoios que temos estatais e os protocolos que temos com os vários municípios, e nesse sentido não é por demonstrar que estamos vivos mas há uma missão também que tem que ser cumprida e portanto nós não nos demitimos dela em momento algum, mesmo que não se pudesse fazer esta atividade desta forma, ou não se pudesse fazer aquela, isto é de um grosso modo aquilo que em tempos de pandemia nós temos vivido que é traçar cenário muitos e fazer concretizações onde ainda não esteja  demonstrado que houvesse caminho feito, estamos nós também a desbrabá-lo, tanto nós como tanta gente

 

DM:

Exatamente estamos perante o desconhecido também, Luís voltando então aos vários momentos da d’Orfeu, Outonalidades e Festim, ficou por falar, acontecem em salas não só em Águeda,  o Outonalidades, por exemplo acontece salas de norte a sul do país com artistas do mundo, são parcerias com instituições internacionais, portanto fala-nos um bocadinho destes dois festivais e depois como é que esta relação internacional que a d’orfeu tem, e perguntando de uma forma muito simples, como é que as pessoas, qual é a relação que temos com as pessoas lá de fora como é que elas influenciam a d’orfeu e como é que d’orfeu as influencía, até porque acredito que neste processo de programação destes mesmos de festivais encontres pares da d’Orfeu em outros países.

 

LF:

Certo, há aí uma coisa que é um festival, que o festim e outra que não é um festival que é o Outonalidades, que é um circuito e eu vou começar por esse porque é o evento mais antigo da d’Orfeu, começou logo no primeiro ano portanto está na 25ª edição nestes 25 anos que a d’Orfeu tem e começou por ser um circuito e um desenho de escala para que o mesmo grupo toque em vários locais, esta noção de rede começou por ser criada em 1996 em Águeda, no concelho de Águeda, com bares que na altura tinha um som ao vivo que hoje em dia já é raríssimo encontrar, tanto em Águeda como nos outros sítios,  portanto mas nos anos 90 tinha um défice de frequência de público a uma sala de espetáculos, mas tinham por outro lado palcos muito dinâmicos que em bares privados, beber copos onde havia música ao vivo, era uma prática absolutamente normal em qualquer sítio, bar que não tivesse música ao vivo, porventura estaria a não conseguir concorrer com os outros, e eu até vou dizer os nomes, havia o bendita esponja, aqui em Águeda, além da ponte, havia o Rami bar em À dos Ferreiros, havia o Vilas bar, nas costas do Alta Vila, onde a certa altura é uma oficina de automóveis, havia o Johnny bar, que começou por essa altura, na Venda Nova, havia o Tatas, era em Valongo do Vouga, havia o Pompeia, que não se chamava Pompeia, agora não me consigo lembrar, na Mourisca, mas tinha outro nome, e estamos aqui a falar dum espetro concelhio, e eu certamente esqueci-me de algum, e o Há7 em Barrô, este bares juntaram-se à d’Orfeu numa ideia peregrina que foi, primeiro começou por ser num dia, 1 de outubro, que é o dia mundial dos músicos, e nós fazíamos o rally das tascas, com os instrumentos a tocar, e basicamente pagavam-nos um copo em todos, e como já estavas com a d’Orfeu em formatação acelerada em termos de projeto, de sustentabilidade, de rentabilidade económica, por aí fora, nós pensamos foi, há tantos amigos músicos que nós já conhecemos, sentimos, estávamos convencidos, e agora consigo dizer que era verdade, estávamos absolutamente convencidos que sabíamos um bocadinho mais que o outros daquilo que se fazia noutros sítios, e sugerimos a estes bares, donos de bares, gente que tem um negócio e um caderno de encargos financeiro para cumprir, e que investiam alguma coisa em música ao vivo, esse investimento em música ao vivo geralmente não era qualificado, era uma lógica de entretenimento, e o que nós quisemos interveir nisso, foi convencê-los, vender-lhes a ideia, programem aqui sob a nossa tutela, uns grupos que nós vamos convidar, ou convocar, ou descobrir, para fazerem o nosso circuito destes bares no concelho de Águeda, vamos encontrar uma lógica de economias de escala que permita que seja possível cada um pagar aquilo que já pagava a um gajo que ia lá fazer karaoke, ou um músico qualquer que fosse lá tocar uma guitarra e cantar uns covers, que pudessem ser projetos autorais, projetos com outra dignidade e qualificação artística, porque havia muitos colegas nossos, da universidade, do conservatório etc. que tinham projetos já muito muito capazes, e eram os tais que tinham mais dificuldade em vingar e entrar em circuitos, portanto criámos o Outonalidades e ele começou de imediato a estruturar-se nesta lógica de grupos que entram numa bolsa de grupos e espaços que acolhem, numa lógica de circuito, e com baixo custo estes mesmo grupos e artistas.Ora já vamos em 25 edições isto em termos geográficos, começou a acontecer um Boom, começou a não ser só concelhio, começou a haver bares aqui na região, depois deixou de ser bares e passou a ser auditórios municipais, começou ser café concerto de espaços municipais ou de espaços públicos, e portanto nós também a chegar com o Outonalidades a espaços mais qualificados do ponto de vista técnico, do ponto de vista do foco do que ali se pretende se é beber um copo ou se é ouvir música, por exemplo, essa era a nossa luta, imagina-se nessa altura que é, o dono do bar privilegiava obviamente, se tivesse que fazer uma escolha, que é eu quero é vender 200 cervejas, não é se se ouve bem ou se ouve mal o grupo que está a tocar, há muitas peripécias dessas, mas devagarinho, primeiro com os donos dos bares, depois os grupos a perceber que havia um mercado nos próprios bares, e depois os novos espaços, os tais, que começa a haver anos anos 90, no início da primeira década deste século, espaços municipais a ter o seu café concerto, a sua programação de ouvir música e beber um copo, de alguma forma, embora já com “o copo” num plano secundário, e também nos interessou e o Outonalidades evoluiu dessa forma geográfica, depois de ser nacional, isto é mesmo de norte a sul do país, com dezenas de concertos ao longo de todo o Outono, edição a edição, passou a ser luso-galaico, encontrámos uma parceria na Galiza, e aí do ponto de vista estatal, foi o equivalente ao Ministério da Cultura da Galiza que comprou um bloco de concertos de grupos portugueses na Galiza, na contrapartida que houvesse grupos galegos a entrar no nosso circuito em Portugal, portanto isso gerou depois uma série de alianças, que são as que estão atualmente em vigor, temos com a Galiza, temos com a Catalunha, temos com um série de regiões em Espanha, já tivemos com o Brasil, com a Finlândia, com a Suécia, com a Itália, com a República Checa agora, o mais recente, e portanto o Outonalidades que começou nestes bares em Águeda, é isto que são dezenas de concertos em cada edição, já não é só Outono é Outono-Inverno, portanto vai de setembro a março de cada ano. Já não é só um circuito, tem também outras coisas ao longo do ano, uma mostra, que no fundo é um encontro profissional de showcases de profissionais se inscrevem desde há 3 anos, são os palcos Outonalidades em eventos de maior formato, os grandes festivais de Verão, isso já aconteceu pontualmente, que é o palco Outonalidades nesses locais e os grupos que se inscrevem, e estamos num momento, este de pandemia, em que os artistas precisam absolutamente de palco avidamente, e não é só disso, é de ter honorários, de ter cachets, e o Outonalidades sagradamente faz isso desde início, dignifica essa vertente, do honorário do artista, ainda assim conseguindo o baixo custo pra quem compra, para quem paga, essa lógica, em Águeda, já agora fazendo este desvio de repente, que é, isto nasceu em Águeda e como é que continua a ser em Águeda, em Águeda nos últimos anos tem sido a Latada que é um espaço novo n d’Orfeu, acolhedor que tem recebido esses concertos, muito deles de alianças, são projetos internacionais, os tais que vêm a Portugal por conta de artistas portugueses a ire lá fora, e também o Centro de Artes no Café Concerto, desde há 2 ou 3 anos, na medida quem que o Outonalidades deixou de ser só Outono, para fazermos o Outono na d’Orfeu e o Inverno no Café Concerto do CAA, tem sido esta a lógica e é essa que certamente vai continuar.

 

DM:

Muito bem. E acerca do Festim (…)

 

LF:

Falta o Festim!

Epa o tempo que estou a falar de cada, isto dá pano para mangas.

 

DM:

Está à vontade Luís.

 

LF:

 O Festim nasce 23, 13 anos depois do Outonalidades, e eu só pego nisto há uma sementes, a lógica de escala. Nós programávamos músicas do mundo no quintal do espaço d’Orfeu, e certamente muita gente se lembra de grandes  noites: a cimeira do fole, dos festival de músicas do mundo cigano, do mestiçal peninsular, se duma série de concertos que era normal no Verão pré Agitágueda, acontecer no espaço d’Orfeu, pré Agitágueda como sabemos, Águeda não tinha oferta cultural em Julho, em Agosto por aí fora, portanto teve-a com duas coisas  marcantes da d’Orfeu, uma que já não existe, já não praticamos mas foi muito decisiva que foi o d’Orfusão, era um intercâmbio internacional de muitas artistas, um pouco na linha daquilo que já acontece por exemplo com a malta que está no Alta Vila, do projeto municipal do AgitLab, do acolhimento de artistas internacionais em Águeda para residência, e para trabalho artístico e isso acontecia com o d’Orfusão, no anos 2001, 2002, 2003, por aí, e esses eram momento de muita dedução, e de muita, não o digo inocentemente, muita sedução por jovens artistas internacionais que era uma coisa nova, eram extraterrestres que aterravam alí e estavam 15 dias em Águeda, a viver Águeda, a par disso as Música do Mundo com concertos que aconteciam naquele mesmo espaço. Depois de percebermos na pele, nós sentimos, como é que financeiramente nós conseguimos tornar sustentável, que venha um artista da Rússia, ou da China, ou dos Estado Unidos, outro do brasil, etc. como é que tornamos isso sustentável, e em 2009, no mesmo ano, que falei já aqui, merecia uma infografia (risos), no mesmo ano que eu falei do festival i! surgir, surgiu também, foi um ano paradigmático  em função de um novo ciclo de apoios, acordo tripartidos que começámos a ter com a Câmara de Águeda e com o Ministério da cultura, esses dois festivais, um local o festival i!, e este tal intermunicipal, o Festim, que foi essa aérea de paixão que trabalhávamos das músicas do mundo, começar a garantir à cabeça o mesmo que fizemos muitos anos antes com o Outonalidades, que é, vocês vêm cá tocar, mas não fazem um concerto, fazem dois, três, quatro, e seduzimos logo no primeiro ano os municípios de Ovar, Estarreja, Albergaria à Velha, além de Águeda, e Águeda mostrou-se muito, como é que eu diria, nada ciumenta, muito estrategicamente aberta a perceber que isso era uma coisa de futuro, até para Águeda, no sentido em que poria uma estrutura local, a d’Orfeu, que nesse momento com o Agitágueda, e convém olhar para isto, o Agitágueda já agora, aquela epopeia do rio povo, também surgiu por esses anos, e que se consumou, se esgotou e que teve o seu papel decisivo para abrir muitas coisas, necessitava de outros protagonistas, e que este protagonista tinha porventura o know-how de fazer as coisas numa escala maior, sem deixar de contribuir com isso para Águeda, e dessa forma os concertos do Festim, que continuar sempre a passar por Águeda, é um município desde a primeira hora, passámos a ter, a subir a fasquia e a capacidade de trazer nomes internacionais da Worldmusic, a esta região independentemente se vêm a Águeda, a Estarreja, a Ílhavo,  a Stª. Maria da Feira, e essa é a lógica  em 12 ou 13 edições do Festim realizadas, no ano passado não se fez mas está garantidíssima para este ano, na tal lógica de olhar para a gestão, olhar para a sustentabilidade, e olhar para o impacto que as propostas podem ter, porque a prazo, aquilo que se repete como fórmula, está condenado a não sobreviver, portanto se continuássemos a programar no quintal, já tinha acabado, e de facto é que acabou, transformou-se foi noutra coisa, não permitimos que deixássemos de ter acesso a projetos tão fascinantes de tantos países, tivemos é que encontrar a fórmula para isso acontecer de um forma mais perene, não digo eterna que não será, mas de uma forma mais longínqua.

 

DM:

Muito bem Luís. Ao longo da história da d’Orfeu, já foram atribuídas várias distinções. Por exemplo, o Estatuto de “Superior Interesse Cultural”, a Declaração de Instituição de Utilidade Pública, a medalha de Mérito Cultural e esteve recentemente em votação pública a atribuição de Estatuto de Entidade de Interesse Histórico e Cultural. 

Devo antes de mais dar os parabéns, por todas estas merecidas distinções e perguntar ao Luís qual a importância destes reconhecimentos pelo vosso trabalho? 

 

LF:

Não foram, como se deve imaginar, finalidades, podem um ou outro ser um meio de atingir outros patamares, outras conquistas, outras concretizações, sendo o objetivo maior chegar às pessoas e fazer chegar às pessoas oferta cultural, dentro daquilo que nós fazemos e que nós vamos inventando. Esses momento não deixam  de afagar o ego e sentirmos que não é por falta de reconhecimento ou por falta de atenção de quem decide, e normalmente essas distinções foi do Secretário de Estado, foi do ministério da Cultura, foi da Câmara ou das Câmaras, foi de organismos do IPDJ, do INATEl, enfim, uma série de distinção, é de facto fastidioso a lista que já temos, e também internacionais, isso é curioso, e tu perguntavas há pouco e se calhar não explorei muito a questão internacional, que é, quanto mais mundo tens, mais consegues fazer pelo teu local, e eu olho para trás, para mim pessoalmente enquanto agente ativo da d’Orfeu, são muitas milhas, e muita viagem, para encontrar muitas vezes a agulha no palheiro, mas quando ela se encontra, ele tem um poder de depois na nossa ação local impressionante, que é muitas feiras, muitos festivais, muitas reuniões, muitos encontros profissionais, entre agentes, entre programadores, quem tem estruturas congéneres, etc. também muitas candidaturas muitos formulários, muitas tentativas, muito barro à parede, de criar  parcerias, umas concretizam-se outras não, e já agora, vocês gerem aí uma sala de  programação e deverão ter esse sentido, pelo menos eu tive ao longo de tanto anos a programar festivais mesmo sem instalações que é, tu queres que um artista venha, e esse artista pode demorar anos a vir, o que precisas é de alimentar essa relação, essa relação pode ser alimentada de várias formas, pode ser por e-mail, todos anos mandar e-mail a ver se pode, se ele quer, se temos dinheiro para ele, mas há outras que é, ir lá, encontrar interlocutores intermédios que também conhecem, que também sabem como, que já fizeram, que já conseguiram, e isso a d’Orfeu é membro de um fórum de programadores de festivais de músicas do mundo, e nesse sentido as oportunidades e as ocasiões que nós tanto perseguimos muitas delas concretizam-se nessa sede, a d’Orfeu fundou uma rede europeia de circuitos de música ao vivo com base nesta lógica do Outonalidades, com uma série de movimentos de outros países e conseguiu trabalhar financiamentos europeis para este tipo de produto que é a música ao vivo em bares, e nós já não temos tanta relação assim, mas esse passado não nos deixou de guiar num movimento desses, nós estamos presentes em certames, em tudo o quanto é sítio, no sentido de projetar as nossas criações, os nosso espetáculos terem também digressão internacional, mas também procurar, fazer a prospeção de que parcerias ou que alianças, ou que artistas conseguimos trazer a Águeda, ou a esta região, as distinções ou os prémios que eu dizia que são internacionais derivam muito disso, por exemplo o Festival i, que passa por um pequeno evento e isso é com toda a humildade sem problema nenhum, é um pequeno evento, a uma escala citadina, nem sequer é concelhio do ponto de vista geográfico, da sua realização, é uma escala citadina de uma série de espaços que faz a programação de um fim de semana com programação para o público infantil e familiar, recebeu um prémio de melhor, isto melhor é relativo não é mas quem o atribui entendeu que era o melhor nesse ano, agora não consigo precisar, em 2017, 2018, por aí, melhor evento ibérico  para público infantil, Portugal e Espanha, na Feira de Teatro de Castilha e Léon, e lá fomos todos nós, aí foi mesmo excursão, fomos receber esse prémio, que localmente passa completamente despercebido, mas que depois dá origem a quê, a que nós com que com o Festival i para o público e para as famílias, também fazemos um mercado de projeção do produto artístico português para este segmento infantil e familiar conseguimos que venham programadores, de vários países viver o fim de semana do Festival i a Águeda, e cia uma relação com Águeda, cria uma relação com a produção nacional e isso é Águeda que faz através de uma d’Orfeu.

 

DM:

Exatamente e lanço uma pergunta que pode ou não ser provocatória, lemos no Publico que “Diz que em Águeda se dermos um pontapé numa pedra, aparece um músico”. Luís, do ponto de vista que traz para esta entrevista, da d’Orfeu, achas que esta frase faz jus ao contexto cultural aguedense, ou debaixo das pedras há mais do que músicos?

 

LF:

Sim, e isso pode ser desde que surgiu a d’Orfeu, em 1995, imagino com a pergunta que estamos aqui no culminar da conversa, portanto calha bem, que é no início da d’Orfeu, isso já se aplicava, davas um pontapé numa pedra e aparecia um músico, temos 5 bandas filarmónicas, temos, tínhamos a certa altura, 18 grupos folclóricos, não sei quantos são agora, embora sejam movimentos que estão também a passar uma fase de metamorfose necessária, e agora o que eu diria é, nós conseguimos que essa quantidade de músicos se convertesse num universo de gente que trabalha nas artes e que não são já são músicos, são músicos e outra coisa qualquer, com esse olhar artístico para outras formas de fazer música, mas artistas, produtos, agentes, técnicos, a quantidade de técnicos, de som e dominação que Águeda forneceu, já não só Águeda a si própria mas à região, em, vou dizer este 25 anos da d’Orfeu, pelo menos, quantos artistas de várias áreas Águeda tem fornecido, e portanto eles vão-se gerando e regenerando, e atenção que não estou a falar estou da d’Orfeu, estou a falar de Águeda, e  Águeda é a d’Orfeu, é o Conservatório, são os grupos folclóricos, são as bandas música, então bandas de música, são músicos profissionais por todo o lado e fazer projetos que não são só de música, e esta figura, que está mais ligada à produção e à gestão, também tem Águeda fornecido,Águeda tem fornecido montes de produtores, para Águeda e outros equipamentos na região, e portanto eu transformaria expressão que tu usaste em “Quem der um pontapé numa pedra hoje, encontra um músico, mas não há só pedras, também há caixas e que der um pontapé numa caixa, encontra um músico fora da caixa.

 

DM:

Muito bem Luís, foi um bom arranjo esta frase do público, sem dúvida.

Para concluir, pergunto ao Luís o que é que nos reserva a d’Orfeu para o futuro e ao mesmo tempo o que é que nos reserva o futuro, não é, neste espetro cultural tendo em conta a presença ainda, bem latente, da pandemia?

 

LF:

Eu preservo-me de de atravessar quanto à d’Orfeu sobre o futuro, na medida em que esta estruturação em que eu me dedicarei, e isso é mesmo uma questão energética, que está neste momento, a pandemia ajudou muito também a ligar aqui botões e a delegar botões, e eu levo portanto um quantidade de anos, esse desígnio de 2015, e ainda bem que me lembras, porque ele está sempre presente, desde 2015 e já estamos em 2021, ainda não foi completamente consumado e portanto não estamos num momento, e isso vai acontecer, de eu me dedicar mais à parte diretiva, a parte da gestão, a parte executiva, temos uma equipa absolutamente fresca e cheia de energia, porque é jovem, eu já tive 25 anos e já não tenho, lamento, ela está absolutamente capaz e capacitada, e tem bebido muito da experiência que a d’Orfeu tem acumulado. Por exemplo, os 25 anos foram celebrado, como se sabe, por ausência de condições para o fazer presencialmente, com o d’Orfeu Vida Selvagem, o vídeo que a Ana Flores fez, brilhantemente, esse é um exemplo, como outros da nossa equipa, que é tudo na faixas dos 20 e tal ano agora, gente que em 1995 não estava nem aí, têm a idade que eu e os meus irmãos tínhamos em 1995, portanto a d’Orfeu está sempre a refundar-se e quantas gerações nos vinte e tais tiveram a d’Orfeu. A d’Orfeu é uma associação e como tal, vive sempre mais dum universo, eu diria que 80% a 90% do universo da d’Orfeu em cada momento, foi quem está na fase dos 20 e tal anos, ou a profissionalização nesta área, e aos 30, 40, certamente precisam de outras coisas que não uma d’Orfeu com a sua fragilidade profissional para as suas vidas, mas e também não é, para quem não é profissional. É um início, um estágio em pipa de carvalho, digamos assim, de gente que pode trabalhar nesta área e muito bem, e tem um excelente espaço para esse estágio. E dizia eu que não me atravessava sobre esse futuro da d’Orfeu do ponto de vista do seu todo porque eu estou mesmo num momento desses botões serem desligados e religados de outra forma, mas não tenho absolutamente dúvida nenhuma que a minha energia e a de quem está nos tais 20 e tal anos e tem a capacidade de fazer dessa d’Orfeu mais 25, tem um sintonia para que se cumpram esses desígnios que ainda não se cumpriram, a consolidação de uma estrutura profissional criativa e não descalçar nenhum calço que esteja a suportar a estrutura de gestão, e portanto não sei aleitar quantos anos terá a d’Orfeu, também não tem que se olhar para este tipo de fenómenos, e a d’Orfeu foi e é um fenómeno, não tem que se olhar para ele naquela lógica de sobrevivência a todo o custo, e portanto nós temos essa experiência, em Águeda e todo o país, de “ah esta instituição é tão antiga, temos que apoiar se não fecha”, não há drama nenhum em relação a isso, mas temos aqui ainda muito para desbravar e para estar o mais possível, na linha da frente daquilo que se vai fazendo de novo. 

 

DM:

Exatamente. Luís, agradece-te a tua participação e teres estado em palco connosco e fica aqui o desejo que rapidamente nos possamos ver presencialmente aqui pelo Centro de Artes, ou então pela d’Orfeu, e mais uma vez obrigado e até breve.

 

LF:

Deixa-me agradecer também e não, dizer que tenho ouvido vários dos momentos que o Centro de Artes tem trabalhado neste desígnio da relação virtual, A Chaminé, do Rui Oliveira, e ainda bem que não foi ele a entrevistar-me porque ele sabe demasiado sobre mim (risos), e o Daniel com a sua curiosidade que não foi só de agora, mas apreciei, e isto é absolutamente honesto, apreciei muito todas as entrevistas que tens conduzido, com muito sentido de oportunidade para o que ouvir as pessoas nesta fase, não falta conteúdos digitais para as pessoas consumirem, portanto encontrar a pertinência, encontrar a oportunidade de determinada pessoa saber mais daquilo que normalmente não se pergunta, aquilo que geralmente não se sabe, para mim, olha, foi também aqui um expurga interessante de voltar a falar de coisas que não se falava há muito tempo.

 

DM:

É isso também que se pretende, para além da entrevista ter aqui um manual de memórias e lições para este espaço de interrupção, e que também é um espaço de esperança até que tudo volte ao normal.

 

LF:

Mais do que preencher agenda virtual das pessoas com isto, não contem com o número de visualizações que aí aparecem. São documentos absolutamente fenomenais para um futuro e não sabemos se é daqui a 50, 100 ou 1000 anos, este documento são preciosidades garantidas desde já, o meu carimbo.

 

DM:

Obrigado pelo seu carimbo e até breve Luís.

 

LF:

Trataste-me por tu até agora e agora passa para você (risos)

 

DM:

(Risos) Peço desculpa, vamos repetir. Luís, obrigado pelo teu carimbo, fiquei a pensar também um bocadinho nas tuas palavras.

 

LF:

Obrigado a todos.

 

DM:

Muito obrigado.

 



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=if8av-kVUsY




























 

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA

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