EM PALCO COM ELA VAZ

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EM PALCO COM ELA VAZ

SINOPSE

No último episódio da temporada, estamos “Em Palco com...” Ela Vaz. O ano de 2017 marca o início da carreira a solo de Ela Vaz com o lançamento do álbum “EU”, que reinventa mas também perpetua a música tradicional portuguesa. Mas antes disso, e durante largos anos, a cantora aveirense integrou vários projetos e discos de artistas portugueses, percorrendo o fado e a música popular portuguesa. No próximo dia 20 de maio, Ela Vaz sobe ao palco do Café Concerto do CAA para um concerto intimista, com início às 19h00.
 


Daniel Madeira:

Ela Vaz, bem-vinda à rubrica em palco do Centro de Artes de Águeda. 

 

Ela Vaz:

Obrigada.

 

DM:

Um palco, esperamos nós, que está quase quase quase a ter alguém, alguém nas suas plateias e também no seu palco. Vou começar por ler uma pequena biografia tua e depois vamos falar um bocadinho sobre a tua carreira e também sobre aquilo que nos trarás aqui no próximo mês de maio, se tudo correr bem, pode ser?

 

EV:

Combinado.

 

DM:

Portanto, Ela Vaz, a música faz parte da tua vida praticamente desde sempre. A sua primeira e capital influência foi o irmão mais velho, o músico e produtor Rui Vaz, responsável, entre outras coisas, pela produção do revolucionário álbum "Amai", de Paulo Bragança, com quem teve uma relação de grande proximidade e cumplicidade musical.

É com ele que Ela começa a alimentar o sonho de ser cantora. Porém, a morte prematura de Rui, em 1997, altera profundamente a sua relação com a música e todo o universo que lhe é adjacente. Nos anos seguintes, não pensa sequer em voltar a cantar.

Assumirá os palcos apenas em meados da primeira década do século XXI, muito por incentivo de outro cantor, Rui Oliveira, com quem participa desde então em vários projetos musicais. Ricardo Parreira, Helder Moutinho e Quiné Teles são outros artistas com quem passa a colaborar regularmente.

Entre 2011 e 2013 integrou a formação do Stockholm Lisboa Project, uma banda que junta músicos e músicas de Portugal e da Suécia, com quem gravou o álbum “Aurora”, distinguido em 2013 com o German Records Critics Award (Prémio da Crítica), na Alemanha.

Participou em diversos outros projetos e discos de vários artistas portugueses, tais como “Cancionário”, de Ricardo Parreira, “Fados & Canções do Alvim”, de Fernando Alvim, “Tardio”, de Ricardo Fino, “Andarilho 2.0”, de Rui Oliveira ou “No Sótão da Velha” de Quiné Teles.

Sozinha ou integrada noutros projetos, tem atuado em vários palcos portugueses e estrangeiros, nomeadamente de Espanha, Alemanha, Bélgica, Noruega, Suíça, Estados Unidos, México e Coreia do Sul.

“Eu” é o título do primeiro disco a solo de Ela Vaz, preparado ao longo de quase três anos em estreita colaboração com o produtor e arranjador Quiné Teles e que conta com a colaboração de autores e compositores tão diversos como Amélia Muge e Filipe Raposo, Nuno Camarneiro e Miguel Calhaz, Ricardo Fino e Sérgio Tannus, Uxía Senlle e Viriato Teles.

Além dos temas originais, “Eu” inclui também canções de José Afonso, José Mário Branco, João Afonso e Pablo Neruda/Víctor Jara, refletindo uma parte importante do vasto universo de referências musicais de Ela. “Eu” conta ainda com duetos de Ela com Rão Kyao, Rui Oliveira e Uxía.

Mais do que um disco de estreia, “Eu” revela-se como o início da afirmação pessoal de Ela, apontando para o futuro, mas sem voltar costas ao passado. Partindo da tradição musical portuguesa, Ela incorpora-lhe urbanidade e cria uma linguagem musical própria, suficientemente vasta para incluir diferentes sons, palavras de épocas distintas, e individualizada o bastante para ser única.

 

Ela, quando lançaste o teu disco de estreia já contavas com vários anos de carreira. Nesse tempo, percorreste o fado e a música popular portuguesa, e participaste, como referi, em discos como «Cancionário», de Ricardo Parreira, ou «Aurora», do Stockholm Lisboa Project. Qual o balanço que fazes desses anos?

 

EV:

Olha, antes de mais muito obrigada pelo convite para estar aqui a falar contigo. Antes deste disco, a minha relação com a música sempre foi muito e íntima e muito dolorida, digamos, e nunca procurei o palco, nunca procurei ser cantora, e esses exemplos que tu dás, do disco do Ricardo Parreira, o primeiro em que eu participei, e depois na banda do Stockholm Lisboa Project, representa um bocadinho a forma como a música foi acontecendo na minha vida, por exemplo, do Ricardo Parreira eu estava a vir de umas férias no Algarve, aliás do Alentejo, passamos em Lisboa e fomos a uma casa de fados e estava lá a tocar, era uma noite organizada pelo Hélder Moutinho, e estava lá tocar o Ricardo Parreira e nós pedimos para cantar, e cantamos, eu estava com o Rui Oliveira, cantamos com uns fados e aconteceu que eles gostaram e convidaram-me para participar no disco do Ricardo, e foi logo uma, vá de eu não cantar em quase lado nenhum, passei a ir cantar à sala principal da Casa da Música, e foi assim uma coisa wow. Tive oportunidades muito boas de participar em discos de músicos de grande valor, e cantar em grandes salas, um bocado sem procurar, e depois uns anos mais tarde também com os Stockholm Lisboa Project, foi mais ou menos a mesma coisa, eles convidaram-me para integrar a banda, tinha saído a cantora anterior, e passei a fazer muitas digressões pela Europa e fui com eles à Coreia do Sul, e foi um bocadinho isso, eu sem procurar aconteceram-me não sei quantas oportunidades que me levaram a este percurso que agora pronto, tenho uma carreira a solo e foi pra aí, olha, foram acontecendo as coisas (risos)

 

DM:

Fantástico, exatamente. E como referi e como tu também referes também, o teu irmão, Rui Vaz, foi uma referência marcante no teu percurso. A influência dele foi decisiva na tua opção pela música, no teu gosto pela música?

EV:

Foi completamente, eu venho, eu sou da geração da MTV, passei a minha infância, e adolescência, na música pop e rock, eu gostava era de ver vídeo clips, e Michael Jackson, e a Madonna (risos), e foi um bocado tarde, vá tarde, aos 18 anos ou 20, que através do meu irmão, que sempre quis ser produtor musical, era o sonho dele, que ele foi estudar para o Canadá, e depois conheceu o Paulo Bragança e começaram a trabalhar juntos no disco do Paulo Bragança, e foi aí que eu tive o primeiro contacto com a música, aliás o primeiro não,  mas um contacto mais aprofundado com o fado e com a música tradicional portuguesa e foi aí que eu conheci o mistério, o mistério do fado, e que me apaixonei pelo género, pelo genero musical.

 

DM:

Exatamente. O disco, que surge em 2017, baseias-te numa certa sensação de estares pronta para te lançares em nome próprio, no momento em que ele sai, ou foi algo assim mais orgânico, e de repente deste por ti a decidir que o caminho agora era por ti, como é que surge?

 

EV:

Pois, isso foi um bocadinho, olha, não te sei explicar bem, foi 10 anos deste percurso de ser convidada para integrar projetos de outras pessoas, se calhar também a maternidade influenciou um bocadinho isso, porque chegou uma altura, eu engravidei da minha primeira filha e eu senti, olha está na altura, sinto-me preparada, já me reconheço porque este percurso de 10 anos em que já era cantora profissional, mas mais a trabalhar com outros, fez-me reconhecer a mim própria, mais a mim do que ao público, estou a falar comigo, de mim, conhecer-me como cantora e conseguir identificar a minha identidade o que é que eu sou como cantora, o que é que eu gosto, o que é que eu quero transmitir em nome individual e não em termos de grupo, e não em termos de projetos pensados por outros, e por isso, foi isso, eu quando tive a minha primeira filha também decidi, olha sinto-me preparada para fazer um trabalho em nome próprio e foi a partir daí que começou a nascer esse disco.

 

 

DM:

Sim, falamos de um disco totalmente autobiográfico não é, que também se reflete no nome EU, como referi na tua biografia nao é?

 

EV:

Autobiográfico, não diria tanto, não chegaria tanto, embora algumas músicas são um pouco autobiográficas, eu quando interpreto um tema quer seja do disco ou outro, interiorizo-o, torno-o como meu, passa a ser meu, mesmo que seja uma música que já foi feita há muitos anos por outra pessoa, e por isso representa-me sempre, mas neste disco há algumas músicas que eu posso dizer que são autobiográficas, alguns autores como Amélia Muge, o Miguel Calhaz, fizeram alguns temas, algumas letras, no caso a letra da Amélia Muge é muito autobiográfico, é uma letra que fala muito, neste caso, pra mim fala sobre o meu irmão, no caso dela fala sobre o irmão dela, e no caso de outras pessoas podem-se identificar também com uma música que fala a si própria não é, por isso sim, sim e não, o EU, e neste caso o nome do disco, acaba por ser um bocadinho um jogo com o meu nome nao é, que é EU Ela, que é o Ela mas que também sou eu (risos) e pronto representa o eu daquele momento, e que é uma evolução não é, agora outros trabalhos serão autobiográficos mais à frente, com outra história contada entretanto.

 

DM:

Exatamente , acaba por ser um “eu” que quem ouve, por de alguma forma vestir temporariamente.

 

EV:

Sim, exatamente

 

DM:  

Agora falando um bocadinho mais da sonoridade, é um álbum que tem nitidamente influências do fado, e da música popular portuguesa. De que forma é que o produtor do disco, Quiné Teles, e os convidados, já referida alguns, marcaram este projeto nesse sentido, e que convidados foram estes, já falaste de alguns mas podes falar de todos e a forma é que ele influenciam.

 

EV:

Olha o Quiné foi a primeira pessoa em que, quando eu pensei em fazer o disco foi a primeira pessoa com quem eu pensei em trabalhar, por várias razões, há uma questão sentimental, que é eu conheço o Quiné há muitos anos e conheci-o através do meu irmão, portanto de alguma forma é uma ligação que existe entre o meu irmão e este disco, embora o meu irmão não possa ser o produtor do disco, o produtor é alguém que o conheceu intimamente no trabalho, e depois por causa mesmo das influências, das minhas principais influências, que são fado e a música tradicional portuguesa e o Quiné é um profundo conhecedor da música tradicional portuguesa, para além de já ter trabalhos como produtor, quer dele quer de outros artistas, por isso o Quiné foi, pronto, indiscutivelmente a primeira escolha para trabalhar comigo no disco. E depois o Rui Oliveira, que eu já falei, o Rui Oliveira digamos que foi, se o meu irmão foi a pessoa responsável por eu descobrir o fado e me apaixonar por ele, o Rui Oliveira foi a pessoa que me fez ser cantora. Se aconteceram oportunidades depois, de eu pisar muitos palcos, foi por causa do Rui Oliveira que eu me reconheci como cantora, e que seria possível ser cantora em Aveiro, porque a minha realidade quando eu tinha 20 anos e eu acompanhei o trabalho do meu irmão com o Paulo Bragança, tudo era muito fácil, eu começava a achar, eu gosto de cantar, eu tenho um irmão que é produtor, ele vai produzir um disco, mais tarde ou mais cedo, e eu posso ir devagarinho no meu percurso pensar o que é que eu vou fazer, tenho muito tempo para pensar nisso, porque embora Lisboa, e na altura era muito mais difícil fazer discos não é, ou tinhas uma editora que te apoiava ou então não havia estas edições de autor que agora facilitam muito a realização dos discos, não é, por isso, eu quando tinha 20 anos achava que seria muito fácil, eu tinha muito tempo para pensar sobre isso não me preocupava muito, mas depois quando meu irmão morreu, e durante 10 anos, eu esqueci-me completamente do assunto pronto, já não era possível, eu gostava de cantar, mas essa porta fechou-se, e foi com o Rui Oliveira, ao conhecer o Rui Oliveira aqui em Aveiro, que era músico profissional há 10 anos na altura, que eu percebi, olha se calhar não, se calhar podemos ser músicos sem estar em Lisboa, e sem ter estruturas sólidas para nos apoiar-nos para nos apoiar não é, e então pronto Rui é o meu grande companheiro e o meu grande companheiro na música, por isso era um convidado inquestionável para o meu disco. Depois tenho a Uxía e o Rão Kyao, que são nomes incontornáveis da música, ela da música tradicional galega, e o Rão Kyao que me deram a honra de participar no disco e que me deixaram muito feliz por isso.

 

DM:

Muito bem. Consideras importante que se reinvente esta tradição sonoro, que é um bocado o teu trabalho, para que ela não caia no esquecimento?

 

EV:

Olha eu acho que é muito importante reinventar e é muito importante continuar a cantá-la da forma original, e tradicional. As duas formas são importante, reinventá-la, trazê-la para outros ambientes, para outros públicos, que se calhar não ouviriam a música tradicional não é, mas também continuar a cantá-la da forma genuína, que se conhece, mais como a Sopa da Pedra ou o Segue-me à Capela, conjuntos que cantam de forma mais tradicional e que eu adoro ouvir, e que acho que são muito importantes continuar a ouvir com essa sonoridade mais original.

 

DM:

Mais característica.

 

EV:

Sim

 

DM:

Falamos agora do Centro de Artes de Águeda, do concerto agendado para 20 de maio, o que é que podemos esperar desse momento?

 

EV:

Olha, o que é que eu posso dizer, já não canto há muito tempo (risos) esta pandemia veio virar isto tudo ao contrário, não é, as borboletas vão ser mais que muitas no meu estômago, estão sempre, pra mim cantar é sempre um misto de prazer e sofrimento, por isso as borboletas estão sempre muito presentes, mas estou super feliz de voltar a fazer música ao vivo, de voltar poder partilhar o palco com os meus queridos amigos, o Pedro Almeida, pianista, e o Nuno Caldeira, guitarrista, e podermos criar essa energia da música, diz-se, o Rui Oliveira fala muito que cantar é falar com Deus, e é um bocado, é isso que eu sinto também, que é quando nós estamos a atuar ao vivo há uma conexão qualquer que acontece e é isso que eu sinto, é isso que eu sinto quando tu ao vivo, portanto o que é que eu posso dizer, é que eu vou levar pra lá o meu coração e que espero que o público possa estar presente, espero que possa ser algum, que também o sinta.

 

DM:

Claro, esperamos que sim, esperamos ter o maior público possível, e que seja um ótimo momento, estamos ávidos de grandes momentos aqui no Centro de Artes como deves imaginar.Pronto esse é um fragmento do futuro, mas haverá muito mais futuro para além desse felizmente, pergunto-te que novidades é que podemos aguardar da tua carreira?

 

EV:

Olha, como tudo até agora, tem sido muito devagarinho e com passos muito pequeninos, e por isso e esta pandemia veio também atrasar um bocadinho esse processo que já estava um bocadinho pensado para começar um pouco mais cedo, e atrasou um pouco, mas está, embora ainda seja tudo segredo dos deuses, já está a começar a ser trabalhado um novo disco, que novidades hão-de surgir em breve (risos)

 

DM:

Ok, não vou perguntar mais, espero que possa passar também aqui pelo Centro de Artes, será uma honra para nós certamente.

Ela, agradecer-te imenso esta participação na nossa rubrica “Em Palco”, este já agora foi o último episódio digamos assim, desta primeira temporada, arrisco, e acabamos muito bem contigo e esperamos que não seja necessário repetir esta rubrica e que os próximos momentos sejam presenciais e que possamos ver várias coisas acontecer aqui, entre elas, o teu concerto de dia 20 de maio, pelo menos. Muito obrigado pela disponibilidade.

 

EV:

Muito obrigado. Beijinho.

 



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=uW6mBoElzjc

 


 

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA

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