“Não só de oceanos se constrói um corpo feito de água”
Carlos Noronha Feio
Nesta exposição propõe-se um desvio: do oceano enquanto imagem dominante para uma compreensão mais ampla da água, dispersa, fragmentada, presente nos corpos, nos territórios e nas memórias. A partir de uma instalação sonora imersiva que articula coordenadas geográficas e paisagens acústicas, constrói-se um arquipélago sensível onde cada ponto deixa de ser localização para se tornar relação.
O que aqui se escuta não é apenas som, mas a inscrição de histórias em movimento. Vibrações que transportam deslocações, encontros, fricções. Como no jazz, linguagem feita de escuta e resposta, a obra organiza-se como uma composição aberta, onde diferentes geografias coexistem sem hierarquia, ativando um campo relacional que se constrói na duração e na experiência.
Ao inscrever Águeda nesta cartografia, através da Pateira de Fermentelos e de outros lugares convocados, afirma-se o interior como território atravessado por fluxos. A água deixa de ser horizonte distante para se tornar presença próxima, acumulada, refletida, transformada. Não é apenas massa oceânica, mas condição difusa: circula entre corpos, infiltra territórios, liga distâncias. É matéria e memória, mas também imaginação.
Se o oceano foi espaço de travessia e violência, mas também de criação e mestiçagem, importa aqui pensar para além da sua escala. Há uma água mais discreta, lacustre, subterrânea, que sustenta outras formas de relação e outras narrativas possíveis.
Entre escuta e deslocação, entre cartografia e experiência, o visitante é convidado a habitar este campo instável. Um território que não se organiza por fronteiras fixas, mas por ressonâncias. Porque não só de oceanos se constrói um corpo feito de água, constrói-se também de ecos, de atravessamentos e de tudo aquilo que, de forma invisível, nos liga.
Ricardo Barbosa Vicente