EM PALCO COM MARCO PAIVA

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EM PALCO COM MARCO PAIVA

SINOPSE

O CAA inaugura, hoje, um ciclo de conversas dedicado à arte e à cultura.

Marco Paiva é o primeiro convidado do ciclo “Em palco com…”. Encenador, ator, fundador da plataforma de criação artística inclusiva “Terra Amarela” e coordenador artístico e pedagógico do grupo de teatro Crinabel.
O espetáculo Aldebarã, incluído na programação (2021) do Centro de Artes de Águeda, é encenado por Marco Paiva e concebido pela "Terra Amarela".

Moderada por Daniel Madeira, esta rubrica conta com a participação de várias personalidades que enriquecem a atividade artística e cultural e que, de alguma forma, se relacionam com o CAA.
 


 

Daniel Madeira

Olá Marco. Antes de mais obrigada por aceitares o convite do Centro de Artes para esta pequena entrevista, espero que esteja tudo bem contigo.

 

Marco Paiva

Tudo ótimo, por aí também?

 

DM

Por aqui também, apesar do auditório estar vazio, continuamos por cá.

Vamos então começar com a tua biografia, vou ler alguns traços que a compõem e depois então iniciamos uma conversa.

Nasceu na Covilhã a 30 de agosto de 1980.

É Licenciado em Teatro ? Formação de Atores pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Concluiu em 2008 o Curso Europeu de Aperfeiçoamento Teatral É?cole Des Me?itres, dirigido pelo encenador brasileiro Enrique Diaz e também uma Pós graduação em Empreendedorismo e Estudos da Cultura – Ramo de Gestão Cultural, no ISCTE. 

É ator convidado da companhia mala voadora desde 2010. Tem vindo a colaborar como ator e encenador em diversas estruturas, nomeadamente: o Teatro Nacional D. Maria II, Centro Dramático Nacional de Espanha, Comuna Teatro de Pesquisa, O Bando, L.A.M.A – Laboratório de Artes e Media do Algarve, Culturgest, Casa da Musica, Teatro Helena Sá e Costa, projeto Crinabel ,que será uma das temáticas da nossa conversa.

Trabalhou com vários encenadores: João Ricardo, João Mota, Enrique Diaz, Álvaro Correia, Jorge Andrade. Também tens participações no cinema, televisão, que certamente seriam importantes de ser referidas, mas vamos começar então por esta tua ideia da arte enquanto inclusão, digamos assim, achas que é segura esta expressão? Então para encetar a nossa conversa vou citar uma pequena passagem do blogue do grupo de teatro Crinabel, se me permites, “Mas na essência do nosso trabalho está uma constante necessidade de questionar o teatro e aquilo que o alimenta: a vida. Não com o objectivo de a mimetizar, mas com a finalidade de a reler, de a transformar e de caminhar na direcção de um espaço colectivo mais rico, plural e implicado com a necessidade de olharmos para o que nos acontece à frente dos olhos”. fazer com que esta passagem seja o mote para esta nossa conversa.

Portanto, Marco, desde 2008 que assumes a coordenação artística e pedagógica do grupo de teatro Crinabel. Podes falar-nos dessa experiência e de que forma é que ela influenciou a fundação da plataforma de criação artística Terra Amarela, em 2018?

 

MP.

Sim, vou ter que recuar uns anos para te enquadrar na minha chegada à Crinabel. Eu, em 1997, tinha chumbado por faltas no Conservatório de Música, estava em contrabaixo, logo no primeiro semestre e a minha mãe disse-me que eu teria que ir fazer alguma coisa para ocupar o tempo e então inscrevi-me num programa do IPJ para jovens até aos 18 anos, que não estavam enquadrados na escola. Era um espaço de ocupação dos tempos livres na verdade, esse programa do IPJ colocou-me na Liga Portuguesa dos Deficientes Motores, na biblioteca a catalogar livros, o que pra mim era terrível porque estava fechado numa sala, com livros à espera de levarem uma etiqueta e eu na altura gostava muito de música, como ainda gosto, e tinha uma banda de rock, e tinha acabado de ser corrido do Conservatório, e um dia a passear pela Liga Portuguesa de Deficientes Motores apercebi-me que estava a haver uma aula de música. Dirigi-me até à sala e encontrei um conjunto de pessoas com paralisia cerebral a tocar instrumentos que eu nunca tinha visto, a produzir sons que eu nunca tinha escutado e aquilo intrigou-me bastante.

Eu arranjei forma, dentro da Liga, de conseguir colaborar com esse grupo trabalho de musicoterapia e a primeira questão que esse momento me levantou foi aquilo que eu ainda não conheço de uma linguagem criativa e artística, nós temos uma ideia, uma conceção normativa sobre as linguagens artísticas, sobre as práticas artísticas mas na verdade, e como diz um bocadinho esse parágrafo, há muita coisa para além daquilo que os nossos olhos vêem e então a minha primeira reação foi de estranheza mas também de muita curiosidade relativamente aquilo que tinha acabado de ver e ouvir.

Esse estágio durou seis meses eu fui-me embora, nunca mais pensei nada daquilo e passado algum tempo, através de um amigo meu professor primário, do Luís, comecei a fazer teatro amador com alguns amigos da minha rua sem interesse absolutamente nenhum pelo teatro, mais pela possibilidade de conviver com as pessoas, e mais uma vez este conviver com os outros faz um link muito grande com aquilo que depois vem a ser o meu trabalho, e o Luís nesse período leva-me a conhecer uma pessoa que foi fulcral no meu crescimento enquanto homem, enquanto cidadão, que foi o João Mota, diretor do Teatro da Comuna, que não altura estava a dar um curso para monitores na Fundação Calouste Gulbenkian. Eu inscrevi-me nesse curso, na verdade inscrevi-me com mais um percalço, porque o curso era para pessoas que já tivessem completado o 12º ano e eu tinha chumbado imensas vezes e nem sequer tinha o 11º completo, mas menti lá nas minhas habilitações e o João, mais tarde contei-lhe esta história, e ele disse que achou muito bem que eu tivesse mentido senão nunca nos tínhamos cruzado e eu nunca teria encontrado este meu caminho no teatro, e esse trabalho com o João foi o segundo momento de entendimento sobre a importância da criação estar sempre muito ligada com o conhecimento do outro, o trabalho do João Mota parte muito sobre esta profundidade do ser humano, sobre o ser criador sobre a construção de coletivos e mais uma vez eu experienciava esta necessidade de olhar mais a fundo sobre o que está à minha volta para entender o que é que nos interessa discutir juntos. Quando acabou esse curso do João esse meu amigo, Luís Nunes, sabendo que eu estava sem trabalho e sem nada para fazer disse-me que havia um teatro que precisava de alguém que ajudasse na parte técnica e a arrumar adereços e levou-me a uma entrevista, e quando lá cheguei apercebi-me que esse grupo de teatro era um grupo de teatro com pessoas com deficiência intelectual e tive uma espécie de déjà vu com com momento que tinha tido na Liga Portuguesa dos Deficientes Motores, mais uma vez e completamente por acaso fui de encontro à questão da deficiência, muito ligada sempre com as artes, e o impacto que tive desde no primeiro dia que entrei na Crinabel, em que eles estavam a ensaiar, e que olhei para aquele grupo de pessoas foi uma necessidade vital de utilizar o palco como espaço de expressão sobre aquilo que estou a sentir que estou a pensar e acima de tudo com uma forma quase crucial, um momento quase crucial, de conseguir comunicar com os outros, com aqueles que estão pra lá da instituição, para lá daquele grupo que se via todos os dias. E pronto, e por lá fiquei, isto em 2000, e fui descobrindo antes do teatro, a grande complexidade do ser humano, a grande complexidade de entendimento de criação de linguagens comuns, de gostos comuns, encontrei um grupo de pessoas que à partida seriam muito distintas de mim, e que na verdade eram, mas que enriqueceram brutalmente a minha ideia sobre o mundo e sobre o outro, e isso coincidiu com a minha vontade de começar a estudar teatro mais a fundo e durante esse período fiz a minha licenciatura em teatro e cinema, e depois em 2008 surgiu a hipótese de poder coordenar o projeto e assumi essa responsabilidade e comecei desde início a tentar pensar numa estratégia, numa metodologia de trabalho, de fixar uma metodologia de trabalho que partisse muito do indivíduo, do ser individual, do universo particular de cada uma daquelas pessoas, e de 2008 até 2019 o projeto teve um arranque extraordinário, fizemos coisas absolutamente maravilhosas, eu costumo dizer que foi a minha verdadeira escola, eu sempre fiz questão de me aplicar no meu percurso enquanto ator porque percebi que quanto mais pessoas eu conhecesse, quanto mais eu conseguisse firmar a minha carreira fora da Crinabel, mais eu poderia levar para dentro da Crinabel, mais pessoas conheceria, mais espaços conheceria e foi sempre um pouco aquilo que eu fiz, sempre que eu conhecia alguém, um encenador, um ator, um novo programador, eu falava-lhe da Crinabel, levava-o lá pra dentro, tentava levar os nossos espectáculos, e sabia que só poderia ir ganhando margem para fazer isso se eu também me fosse afirmando enquanto criador, ator e encenador fora daquele projeto, porque na verdade a Crinabel é uma cooperativa de ensino especial, o grupo teatro é um centro de atividades ocupacionais, não é um grupo de teatro, e portanto vive-se num conjunto de regras diferentes daquilo que é uma estrutura artística e portanto para eu conseguir implementar um projeto artístico, ao nível a que o projeto chegou, eu tinha que conseguir, fora da Crinabel, criar uma estrutura que me permitisse validar depois o trabalho que eu traria dali e então este meu percurso, e para fazer a ligação aquilo que acabaste de ler, o meu percurso teve sempre muito a ver com a relação com os outros mais do que com arte, a arte acaba por ser para mim uma consequência da intimidade e da profundidade que eu consigo com aquilo que está à minha volta, se não tiver a profundidade essa intimidade com os outros , com as coisas, com os territórios, dificilmente eu consigo transcender-me daquilo que é o quotidiano, porque se eu não conheço bem o quotidiano, vou-me transcender para quê? Ou para onde? E então esses conceitos de proximidade e intimidade são fundamentais para depois encontrar essa dimensão artística. Em 2018 depois de nós termos tido uma experiência muito intensa na Crinabel com a primeira coprodução com o Teatro Nacional Dona Maria II, onde nos 30 anos do projeto, coproduzimos o espetáculo chamado “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai”, eu percebi, depois da experiência, que para dar continuidade ao meu trabalho e àquilo que eu acredito que pode ser a criação artística, eu tinha que criar uma estrutura de criação focada e que tivesse como missão a criação artística em si e não poderia continuar a fazer isso numa lógica mais escolar ou numa identidade que não tivesse como missão fulcral a cultura e arte. Por várias razões: para mim a principal era a de poder passar, por exemplo, a remunerar artistas, eu trabalhei com pessoas na Crinabel durante 20 anos e nunca pude pagar um ordenado porque eles na verdade são clientes da instituição, não são funcionários, portanto não podem receber, isso a mim começou-me a custar muito porque nós, houve uma altura no projeto da Crinabel que trabalhámos a um ritmo muito alucinante, produzíamos muito por ano, produzíamos muitos espetáculos, geravamos algum dinheiro, e esse dinheiro não poderia ser para aquelas pessoas e para mim a questão da remuneração é fundamental porque a remuneração também significa qualidade vida, significa dignificação e a Terra Amarela aparece no sentido de poder criar uma estrutura profissional, onde eu me pudesse rodear de uma equipa vocacionada para a missão da criação artística e todo nosso trabalho ter na sua génese, na sua identidade, todo ele respirar esta ideia da diversidade e da criação artística e cultural

 

DM:

Muito bem Marco.

Falaste então do espetáculo “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai”, uma criação do grupo de teatro da Crinabel, podemos voltar um bocadinho atrás, digamos assim, ao primeiro contacto que esse mesmo grupo de teatro teve connosco, com o Centro de Artes de Águeda, falo-te naturalmente de “Romeo Loves Juliet”, com texto de Cláudia Lucas Chéu, encenado por ti e protagonizado pelo grupo de teatro da Crinabel com o Albano Jerónimo. Bem, podes já ter respondido a esta pergunta, de qualquer das formas, vou fazê-la para pormenorizarmos esta peça, de que modo esta peça espelha a ideia de inclusão pela arte?

 

MP.

Eu se calhar explicava-te o que é que eu entendo por inclusão. Para mim inclusão é sempre uma relação de troca, é sempre um momento onde eu recebo e dou qualquer coisa, às vezes o conceito inclusão está muito ligado a uma ideia paternalista de alguém que traz outras pessoas para dentro e um círculo.

Eu encaro de outra forma, para mim inclusão é assim um exercício bilateral de troca, de constante movimento, de ideias, de vontades. O “Romeo loves Juliet” estava integrado num projeto, numa encomenda à Cláudia Lucas chéu, de três textos a partir da obra de William Shakespeare, o primeiro foi o “Tito - Um ensaio sobre o poder”, que nós estreamos na Casa da Música em 2017, o segundo “Romeo loves Juliet”, e um terceiro a partir do “Rei Lear”, que nunca chegou a estrear, iria estrear em março de 2020 na Casa da Música mas deu-se a pandemia.

E cada um desses espectáculos estava assente num conceito: poder, amor e fim. Poder no caso do Tito, amor no caso do “Romeo loves Juliet” e o conceito de fim no caso do “Rei Lear”.

O projeto da Crinabel nunca trabalhou como projeto Bandeira, ou seja, nós nunca fizemos questão de discutir a deficiência ou inclusão, nós pretendemos sempre discutir temas universais que nos inquietem enquanto humanidade e nós enquanto artistas podermos comunicar aquilo que para nós seria pertinente comunicar, e no caso do “Romeo loves Juliet” aquilo que nos importaria falar era a questão do amor, qual é a dimensão do amor, quais são as fronteiras desse sentimento, onde é que esse amor se destrói por outro tipo de valores e portanto não havia propriamente uma premissa, a premissa de inclusão, a inclusão existia a partir do momento em que nós subimos um palco, partilhavamos qualquer coisa e recebíamos do público uma reação, e o trabalho da Crinabel foi sempre muito assente nisso, tal como é o da Terra Amarela, que dizer, não funciona como projeto bandeira, o nosso interesse não é só discutir a diversidade, é discutir a diversidade no sentido mais largo da palavra, no sentido da diversidade humana em tudo aquilo que ela pode tocar e não só na questão da deficiência ou de uma minoria, porque consideramos que o conceito de diversidade é um conceito que deve imperar as nossas relações sociais, é importante olhar para o outro não como aquele que é igual a mim mas aquele que me traz outra perspetiva das coisas outro ponto de vista sobre determinado assunto, e nesse sentido o trabalho artístico que eu sempre desenvolvi na Crinabel foi muito assente nisso, nesta ideia que nós queremos discutir coisas que sejam pertinentes para todos, e depois é claro que tem a condição de cada um daqueles artistas, a condição do nosso próprio trabalho, levanta questões, levanta questões sociais, até estética relativamente ao teatro mas não é que isso seja o nosso ponto central do trabalho, são só idiossincrasias daquele coletivo, e acho que é por aqui.

DM:

Muito bem Marco. No seguimento desse raciocínio e tendo em conta também a tua experiência pelo país, não é, atuaste ou encenaste para salas nos grandes polos de Portugal mas também para cidades mais pequenas. Sentes de um modo geral que o público português está preparado para olhar “além da norma”, uma expressão que retirei da sinopse do espetáculo que falamos há pouco. Sentes que o público está preparado para isso?

 

MP:

Sim, sinto cada vez mais acho que nos últimos eu diria nos últimos seis anos conjugaram-se uma série de fatores que proporcionaram que a cultura se tornasse um espaço mais diverso mais plural do que tinha sido até então, e teve a ver com muitas coisas, teve a ver com quem chegou aos cargos de programação foram pessoas de uma geração que já traz em si essa génese, já traz em si essa essa inquietação da transgressão, de olhar para a programação não como um exercício de calendarização de obras mas de relação muito próxima com os territórios e já olha para os territórios com a pluralidade que os territórios têm, já entendem que numa cidade vive muita gente diferente com gostos muito distintos e isso ajudou muito e colaborou muito para a criação de redes de programação que acolhem espetáculos e propostas das mais diversas perspectivas artísticas e estéticas, depois a questão do acesso cultural passou a estar na agenda política do nosso país, hoje em dia quando se pensa um espaço cultural já se pensa um espaço cultural na perspetiva da diversidade dos públicos, os meios com que comunicamos o nosso espaço, nos últimos 6 anos, sofreram uma diferença enorme, já há uma preocupação em ter serviços como a língua gestual, como áudio descrição, como programas em braile, os museus tornaram-se mais digitais, as pessoas de mobilidade reduzida passaram a ter espaço no teatros próprios, os teatros, os museus , os espaços culturais de uma maneira geral começaram a preocupar-se com a acessibilidade física, e grandes espaços, o Teatro Nacional Dona Maria II, por exemplo, faz um trabalho extraordinário na acessibilidade dentro do próprio teatro, dá o exemplo para outras estruturas, portanto a partir deste momento em que não só a questão do acesso, da diversidade, passaram a estar no nosso léxico e na agenda daquilo que são as políticas culturais também há esta geração que chega, que tem alguma margem de manobra, que pode decidir e que já quer decidir olhando de forma mais maximizada para aquilo que são as pessoas, para as quais nós programamos coisas, já não se programa do gabinete, os espaços culturais já programam na relação com os seus públicos direta: o ir conversar, o ir às associações, o ir à rua, esta inversão da lógica de programação ajudou a que projetos divergentes daquilo que eram as normativas até então começassem a ter espaço de entrada, e os próprios artistas já têm uma necessidade de ir dialogar com os públicos, o artista já não é aquele que vai ao palco diz umas coisas e desaparece, já quer lá ficar, já discute, os espetáculos vão acompanhados de ateliers de sessões de trabalho com os públicos antes do espectáculo acontecer, os artistas querem dar a entender aquilo que fazem, querem escutar também quem os vai ver, e esta agilidade na comunicação entre estruturas artistas e públicos veio abrir muito mais leque e muito mais a cabeça das pessoas que se sentam para ver um espetáculos, as pessoas sentam-se com mais ferramentas dentro do bolso para ver as obras, e no caso da deficiência e dos artistas com deficiência, isso também acontece, o nós por exemplo termos insistido em trabalhar durante três anos seguidos com a Casa da Música com aqueles públicos ou termos começado a desenhar digressões com a Crinabel e agora mais ainda com a Terra Amarela com grandes estruturas de programação, tudo isso ajudou a que entrássemos num circuito onde nós podemos ter um espaço para contar a história daquilo que fazemos, para escutar as pessoas e para manter a fluidez nesta comunicação e depois o próprio Estado, as políticas culturais, foram criando novos pontos de vista, a Direção Geral das Artes em colaboração com a Acesso Cultura lançou por exemplo duas linhas de financiamento: uma para projetos artísticos com artistas com deficiência e outras estruturas que queiram adquirir serviços de acessibilidade para as suas organizações, portanto o próprio Estado, as próprias políticas culturais vão nessa direção, da diversidade e acho que aquilo que acontece neste momento é que já não estamos a fazer uma discussão sobre a margens, estamos a falar sobre coisas que estão acontecer e que estão no centro das questões culturais e artísticas


DM:

Em 2021, preparamo-nos para apresentar “Aldebarã”, uma criação da Terra Amarela precisamente, estamos à espera de uma nova data, também um bocadinho por causa desta pandemia. Podes falar-nos deste trabalho?


MP:

Sim, o Aldebarã é o primeiro espetáculo da Terra Amarela e foi um desafio que eu lancei ao Alex Casal, dramaturgo e encenador brasileiro, para nos escrever um texto sobre uma viagem, e uma viagem com um grupo de pessoas que fossem obrigados a criar uma linguagem própria para viajar, então o Alex criou este Aldebarã que é uma viagem galáctica à estrela Aldebarã onde os tripulantes, que ocupam essa nave de viagem, são as pessoas mais inesperadas do planeta: é um astronauta surdo, uma planta, uma astronauta com pouca experiência e uma que foi lá parar por engano. É um texto cómico muito dirigido à infância e juventude, em duas línguas: línguas gestual portuguesa e língua portuguesa, verbalizada, oralidade, e é um espectáculo onde se prepara uma viagem mas também se prepara uma nova forma de entendimento, onde duas línguas têm que se encontrar para definirem um plano onde de três pessoas e uma planta são obrigados a partilhar um espaço e a liderar um projeto que vai salvar a humanidade, e mais uma vez é um espectáculo que tem muito na sua génese esta necessidade de implementar a diversidade para conseguirmos atingir um objetivo comum, um bem estar comum, é um espectáculo que tem uma componente de vídeo muito grande feito pelo Mário Melo Costa tem a particularidade de não ter uma intérprete de língua gestual, tem um ator surdo que fala em língua gestual portuguesa e tem depois uma personagem que colabora no entendimento de todo o espetáculo mas que é uma personagem não é uma intérprete, não é aquela figura que nós costumamos ver no teatro, a um cantinho a traduzir, é uma personagem que está dentro da cenografia dentro da dramaturgia e o espectáculo está todo preparado para ser um espetáculo acessível para para ser entendível por pessoas surdas ou não, um espectáculo onde foi preparado um texto para audiodescrição que fica disponível para os teatros, a própria escrita do Alex contempla estas premissas e este entendimento do espectáculo por públicos muito distintos, o espectáculo foi todo construído a nível, de som luz e vídeo para contemplar sessões descontraídas, sejam por pessoas que por alguma razão tenham que entrar e sair da sala, que tenham patologias por exemplo relacionadas com o autismo, ou epilepsia, não existe violência em nenhum destes elementos que referi, é um espectáculo que está pensado para ser um elemento confortável e de liberdade para o maior número de pessoas possível e com características diferenciadas.

 

DM:

Estamos ansiosos para que seja possível, estamos muito ansiosos.

Marco para finalizar, perguntar-te se podes revelar alguns dos teus projetos futuros, o que é que te reserva o futuro a ti e à Terra Amarela, fala-nos um pouco sobre isso por favor.

 

MP:

Eu pessoalmente tenho uma série de desafios agora enquanto ator de projetos que vão surgir em breve, mal esta pandemia nos dê algum espaço, mas vou ficar muito focado na Terra Amarela nos próximos tempos a terra amarela vai fazer uma coprodução com o Teatro Nacional Dona Maria II e o Centro Dramático de Madrid com uma equipa portuguesa e espanhola, equipa técnica e artística, e vamos construir um espectáculo a partir do Calígula de Camus, que estreia a 19 maio no Teatro María Guerrero em Madrid, faz uma carreira do mês, e depois treino Teatro Nacional Dona Maria II a 26 junho até 4 de Julho, depois do Aldebarã tem uma digressão em setembro-outubro e já estamos a preparar o ano de 2022 onde temos em carteira, cinco criações divididas em dois ciclos: o ciclo da palavra e o ciclo da beleza, no círculo da palavra vamos abordar dois textos de dramaturgia contemporânea muito centrados na retórica mas vamos abordá-los através da língua gestual portuguesa, com dois atores surdos, e no ciclo da beleza vamos encomendar a dois dramaturgos portugueses dois textos sobre este conceito tão universal e com tanto espaço de discussão sobre o que é isso no belo e será assim os nossos próximos dois anos.

 

DM:

Recheados, Marco, agradecer-te imenso por teres participado nesta entrevista connosco, esperar que nos vejamos em breve, presencialmente neste auditório, e tudo de bom para ti e para a tua carreira.

 

MP.

Obrigado Daniel, um grande abraço a todos.



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=nRc5OC94gDs&t=103s

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA
 

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