EM PALCO COM SARA ANTÓNIA MATOS

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EM PALCO COM SARA ANTÓNIA MATOS

SINOPSE

Sara Antónia Matos protagoniza o terceiro episódio do ciclo de conversas “Em palco com...”.

Curadora e diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar da EGEAC, Sara Antónia Matos assume a curadoria da exposição “Mais Nada se Move em Cima de Papel”, integrada no ciclo expositivo “O Desenho Como Pensamento”, patente no Centro de Artes de Águeda.

Nesta descontraída conversa, conduzida por Daniel Madeira, Sara Antónia Matos falanos do panorama atual da arte contemporânea bem como da sua participação no projeto local “O Desenho Como Pensamento”.
 


Daniel Madeira:

Bom dia, Sara António Matos, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite e estar aqui em palco connosco, em palco ainda que vazio cheio de presenças, vamos dizer assim, vou começar para ler uma biografia da Sara António Matos e depois vamos falar um bocadinho sobre a exposição da qual é curadora e que está ainda patente no nosso espaço expositivo.

Sara Antónia Matos é curadora e directora do Atelier-Museu Júlio Pomar da EGEAC, desde 2012, tendo acumulado também a direcção e programação das Galerias Municipais de Lisboa desde Janeiro de 2017 a Março de 2019. Faz parte da Comissão Instaladora e Científica do Banco de Arte Contemporânea – BAC, um projecto de espólios documentais e artísticos de arte contemporânea, da EGEAC-Câmara Municipal de Lisboa, numa parceria estabelecida com a Fundação Carmona e Costa e o IHA - Instituto de história da Arte da Faculdade de Ciência Social e Humanas da Univ. Nova de Lisboa, Lisboa.

É formada em Escultura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Mestre em Estudos Curatoriais e Doutorada com a tese “Da Escultura à Espacialidade” na mesma Universidade.

É curadora desde 2006 tendo apresentado exposições em várias instituições, desde o Centro de Artes Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Carmona e Costa  Museu Berardo, Museu de Artes Contemporânea de Elvas, entre outros. Publica regularmente ensaios sobre arte, em catálogos e revistas da especialidade e é coordenadora da colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar. Foi docente convidada da Faculdade de Belas Artes da Univ. de Lisboa e coordenadora do Curso de Escultura do Ar.Co.

 

Sara, o Centro de Artes de Águeda inaugurou, em setembro de 2020, o ciclo “O Desenho Como Pensamento” que, tal como o nome indica, se centra na transdisciplinaridade do desenho. Este ciclo, com direção artística de Alexandre Baptista,  inclui a exposição coletiva “Mais Nada se Move em Cima do Papel” com curadoria da Sara. Como é que pensou esta exposição?

 

Sara Antónia Matos:

Viva Daniel e viva a todos. 

Bom, enfim a curadoria tem, como penso que sabem, um conjunto de práticas, de saberes muito específicos, que envolvem um conhecimento do meio, uma continuidade de visitas a ateliers, um conhecimento ou uma aferição da situação para a qual somos convidados a conceber uma exposição e é nesse conjunto de meandros, vamos dizer assim que se define uma exposição, e portanto quando o Alexandre Baptista, o programador do ciclo, me convidou a realizar a exposição sobre a ideia de desenho com pensamento, aquilo que eu percebi tendo em conta o conjunto de condições foi que não iria realizar uma exposição de retrospetiva de desenho por exemplo em Portugal, não havia condições para isso não era esse o intuito de convite, o intuito do convite era de facto pensar pensar a ideia de desenho no sentido amplo e lato e portanto eu decidi que não ia fazer essa retrospectiva, também não ia dizer, como eu gosto de referir ,não ia trazer relíquias de desenho não era esse o sentido da exposição, era essa abordagem lata e portanto pensei num conjunto de autores, que eu sigo, que eu aprecio, que me interessam ,e fui vendo com eles as obras que me interessavam trazer e que era possível trazer, para a pensar nessa ideia e nessa condução do desenho como algo que não é o desenho no sentido convencional ou só o desenho no sentido convencional mas que remete para o desenho enquanto uma condição anterior enquanto uma busca, enquanto uma procura, e portanto foi nesse conjunto de autores que também procurei que fossem, que houvesse uma equidade de género, tanto homens como mulheres, uma diferença de gerações, e uma interpenetração de gerações, até porque acho que há obras de autores em gerações diferentes que eu acho que se tocam e eu estabeleci essas relações na exposição, nomeadamente posso referir agora uma que me estou a lembrar, entre a Sara Chang Yan e o Alberto Carneiro, na verdade eu tentei remeter de umas obras para as outras e são autores de diferentes gerações e portanto eu procurei essa ideia de desenho enquanto algo anterior, uma ideia de pensamento, procurei espelhá-la nas obras e nos  seus diferentes meios  artísticos. Enfim há curadores e profissionais do meio que tem uma visão muito ampla do meio mas não seguem os autores, outros que seguem autores continuamente, eu pensei que é o meu caso, eu prefiro trabalhar com os artistas de forma contínua, seguindo-os de forma contínua, percebendo ao longo dos anos o que estão a desenvolver isso também me percebeu permite perceber que embora alguns autores não trabalhem só desenho, abordando outros meios e formalizando obras noutros meios, eles estão a trabalhar desenho, e portanto foi um bocadinho dessas ideias que eu procurei trazer para a exposição

 

DM:

Agora vou perguntar acerca do título, “Mais nada se move em cima do papel”porquê este título?

 

SAM:

Na verdade tem a ver com isto que eu estava a explicar, a ideia do desenho como uma condição anterior, com uma busca, e muitas vezes uma busca que nunca é atingida, os artistas estão sempre à procura de qualquer coisa que não acedem , uma imagem transcendental no sentido kantiano, uma imagem inatingível e uma imagem que muitas vezes até nem existe, porque tem a ver com essa ideia suprema e portanto é uma busca contínua e que perseguem nessa busca continuamente independentemente de a virem a encontrar, aliás o Alberto Carneiro tinha uma expressão muito curiosa para descrever essa busca, ele dizia que os artistas têm um novelo na mão, e cada obra que fazem tiram uma linha desse novelo mas esse novelo nunca chega ao fim, nesse modelo há sempre há sempre um núcleo, um core e o Rui Chaves, por exemplo, diz que os artistas tem uma bola de fogo na mão e estão sempre com essa bola de fogo em movimento na mão e não se podem deixar queimar, portanto há essa busca contínua sendo que muitas vezes se sabe o que é inatingível e a ideia do desenho como algo anterior como se busca mas que muitas vezes não se consegue agarrar, tem a ver com esse desenho com pensamento que o Alexandre propôs, e portanto foi também um bocadinho essa ideia que me fez pensar que a ideia de pensamento, da anterioridade, da condição inatingível, transcendental, tem a ver com algo que se move em cima dos meios em cima do papel em cima das superfícies, mas que não se consegue atingir isso é muito bem dito pelo Alberto, pelo poeta, que é esse título que fui buscar e que termina o poema dizendo que “Assim me habituei a morrer com uma esferográfica cravada no coração”, quer dizer que passarei a vida com o meu instrumento de trabalho, que é escrita, no coração mas sem nunca conseguir atingir isso, portanto a mesma coisa com os artistas que passam a vida com os seus os meios de trabalho na busca dessa imagem transcendental dessa imagem impossível, como eu digo, mas que provavelmente nunca atingem como o novelo do Alberto Carneiro que nunca é totalmente desfiado ou bola de fogo do Rui Chaves que nunca deixa de arder, tem a ver com essa ideia, ou até com desenhos e materiais, estou a lembrar-me da obra da Luísa Cunha que é um desenho descrito pela voz da artista, ou os traços invisíveis das caracoletas do Luís Paulo Costa, ou o esvoaçar das figueiras do Júlio Pomar que são apenas riscos, que simbolizam o vento, assim como os de Alberto Carneiro, portanto são ideias de desenho muito fugidias muito imprecisas. É uma busca. A ideia do título é ideia de uma busca.

 

DM:

Exatamente, e como a Sara falou, referiu o ciclo onde esta exposição se insere,”O Desenho com Pensamento” e pergunta à Sara, isto acabam por ser duas questões primeiro, como é que olha para o ciclo na questão da descentralização e depois, se achar que é uma lógica que possa levar de um termo ao outro, como é que olha para este círculo no contexto atual da pandemia?

 

SAM:

Uma pergunta interessante sobretudo porque, embora eu esteja neste momento a trabalhar em Lisboa, de facto comecei por fazer projetos fora de Lisboa, no Alentejo, na periferia, e essa pergunta é muito interessante porque eu estou a favor da descentralização das artes e de resto tudo, mas eu vou pôr a questão nestes termos, a descentralização é muito interessante, tal como aconteceu aqui Águeda, quando os projetos são feitos e produzidos de raiz e quando não são meras importações, meras deslocações de projetos já feitos e já fechados, para a periferia. Quando os projetos, ao contrário como este de Águeda, pensado e concebido pelo Alexandre, que são montados, estruturados, e produzidos integralmente de raiz a partir da periferia, há um envolvimento social, até político, económico, cultural das cidades e das regiões, que torna as coisas únicas, torna as coisas singulares, e no fundo produtivas porque quando se envolve o tecido cultural de uma cidade, quando se está a produzir, por exemplo um ciclo e as empresas apoiam e reconhecem o esforço feito e portanto quer em termos de promoção quer em termos até financeiros , muitas vezes apoiam, há todo um envolvimento social e o reconhecimento social da atividade que é importante para quem vive nessas cidades e muitas vezes as coisas tornam-se únicas por serem feitas e produzidas de raiz em cada sítio porque cada sítio tem as suas especificidades, as suas condicionantes locais, e pode produzir coisas diferentes a partir da sua localidade, e isso foi uma coisa muito especial que eu encontrei também neste projeto e que em parte me fez aderir ao projeto e me fez aceitar o projeto, eu acho que isso também se deve ao Alexandre que propôs e concebeu isso de raiz e acho que há esta condicionante, sim a descentralização é muito interessante quando produz e quando se desafia a produzir as coisas do início.

No contexto da pandemia, acho que contava uma história que passei neste ciclo, que acho que foi muito interessante e acho que me moveu muito e me tocou muito, que tem que ver com o desenvolvimento do ciclo durante a primeira pandemia e agora a segunda, isto continua a verificar-se, mas durante o primeiro confinamento, e o que aconteceu foi que eu recebi o convite por parte da autarquia e do Alexandre, ainda antes do confinamento, ainda antes da pandemia acontecer, deu-se o confinamento e eu fui perguntando estava de pé, se o projeto estava de pé, e foram-me dizendo que sim, eu fui visitar, ainda durante o confinamento, o espaço e fui recebida pelo presente a Câmara e pela senhora Vereadora, como quem diz, estamos aqui para dar a cara, portanto isto aqui não vai cair, o que me fez acreditar que podia continuar a desenvolver o trabalho e a contactar os artistas. Fui fazer a montagem, tive a mesma receção, fui a inauguração do ciclo em si, no qual nesse momento a minha exposição ainda não estava aberta, e percebi que a receção era também muito positiva, que havia um dar a cara pelas coisas pelos projetos, da parte da autarquia, da parte das pessoas da cidade, da parte dos apoiantes, de colecionadores, de galeristas, portanto havia uma adesão ao projeto e depois finalmente quando a exposição é aberta, já estávamos no confinamento parcial, e eu mando um e-mail aos artistas a dizer, caros exposição vai estar até abril, eu compreendo se não puderem estar todos presentes na inauguração mas se entenderem que devem estar a Câmara poderá passar uma declaração a dizer que podem transitar, que podem se deslocar entre conselhos, mas não estava crente, digamos assim, ou à espera que os artistas aparecessem, quando todos começaram a responder, se é uma resistência é uma prova de resistência nós também queremos ir e vamos e portanto queremos todas as declarações, e assim sucessivamente contagiaram-se uns aos outros, e a verdade é que inauguração correu muito bem foi um momento muito bonito, eu só estou a contar isto porque é uma prova de resistência dos artistas, da atividade cultural, dos agentes que possibilitam esses projetos e aqui sobretudo por parte da autarquia. Portanto quando me perguntas o que é que este ciclo significa num contexto de descentralização ou num contexto de pandemia ou pós-pandemia, eu digo-te isto, reflete uma autarquia que acredita nas coisas, que acredita no trabalho cultural, que não se demite e pelo contrário, está aqui resistente e isto é uma prova também de dignificação do trabalho cultural, dos artistas e dos trabalhos que trabalham nesta área. 

 

DM:

Conseguiu responder bem às duas perguntas, que poderiam estar isoladas como lhe disse, mas que afinal fizeram sentido serem perguntados assim. 

Em relação ao panorama da arte contemporânea em Portugal, quais são as boas práticas que a Sara tem assistido nos últimos anos e quais são as más?

 

SAM:

Portanto boas práticas, também no seguimento do que fui dizendo, boas práticas serão tudo aquilo que pugna por uma dignificação do trabalho dos artistas no sentido de lhes criar condições de trabalho, e de produção, nomeadamente no contexto de exposições, produção de obras, sem que os artistas tenham que investir da sua parte nessa produção de obras, criação de fees para o seu trabalho, condições de, por exemplo, criação de fortuna crítica, imaginemos chamar críticos de arte, teóricos, ensaístas para escrever sobre os seus trabalhos de modo a que isso crie reflexões, reconhecimento sobre os seus trabalhos e alicerce teóricos para os trabalhos. 

Más práticas, digamos assim, ou práticas menos corretas, serão aquelas que não criem essas condições. Eu gostava de transmitir aqui uma ideia que eu tenho tido nos últimos anos que tem sido, por parte de algumas instituições sobretudo as de maior envergadura, de maior dimensão, uma falta de investimento em fases de processos, de investigação, desenvolvimento de trabalhos, tempo de criação, e são aspetos que eu estou a procurar, por exemplo através do Atelier-Museu, fomentar,  trabalhar com os artistas ao longo, por exemplo, de um ano e meio antes das exposições de realizarem, pagamento de produções, fees para que os artistas possam trabalhar sem outras preocupações, e fazer essas espécie de encomendas trabalho, criado-lhes espaço de ensaio, espaços de trabalho, e tempo sobretudo, para que eles possam desenvolver os trabalhos mesmo que depois esses processos de investigação não tenho os resultados mais visíveis ou mais espectaculares, portanto digamos que as boas práticas serão uma espécie de investimento no trabalho dos artistas à anteriori, não só no momento da exposição, no momento de apresentação, mas um acompanhamento dos artistas nas fases de risco: nas fases de produção, nas fases de investigação, nas fases de montagem, portanto todas aquelas fases que estão antes do momento de apresentação, e eu julgo que, em parte,  algumas instituições se têm demitido um pouco destas fases que estão antes, antes da exposição, antes do momento de apresentação ao público, e as instituições estão muito focadas neste momento, também porque tem alguma pressão, no momento de apresentação do público, das contagens do público, e eu julgo que é preciso as instituições voltarem a focar nos momentos anteriores, os momentos em que se alavancam produções, os momentos em que se proporciona investigação e que, enfim, se lançam as raízes para os artistas devolverem o seu trabalho com condições. 

 

DM:

Uma valorização do work in progress.

 

SAM:

Exatamente e menos preocupação nesse momento da exposição pública porque o público também pode perceber que os artistas e o trabalho dos artísticos resulta de um processo contínuo, de um processo complexo, que não é somente o momento de exposição. Muitas vezes são anos de trabalho ou meses de trabalho contínuos, solitários, e é isso que eu estou a apontar, que muitas vezes esse trabalho escusa de ser tão solitário, escusa de ser tão (Daniel: “digo eu, precário também) precário. O artista pode ter noção que há uma instituição que está a apoiá-lo ou que há um curador está a apoiá-lo quer através de uma instituição ou até independentemente, e que há um  acompanhamento, seja um acompanhamento a que nível for.

 

DM:

Claro que todas estas questões do acompanhamento das instituições acabam por afetar a questão seguinte, pergunto à Sara como é que vê ou como é que enquadra o artista português no contexto mundial, atualmente.

 

SAM:

Eu digo sempre que os artistas portugueses estão bem em qualquer parte do mundo porque é porque é verdade, porque o seu trabalho é tão bom em termos qualitativos e até em termos da fundamentação e discurso tão bom como qualquer outro, o que é que o tece muitas vezes é que as instituições não têm capacidade de os propulsionar internacionalmente, e portanto aquilo que vemos é que muitos artistas que fizeram ou estão a construir uma carreira internacional, isso foi feito quase às suas custas, por vezes às bolsas, há muitas bolsas de algumas instituições que permitem os artistas e pra fora ou trabalhar durante um tempo fora, inclusive o atelier Museu tem uma bolsa para Nova Iorque mas a Gulbenkian também teve, aliás teve para vários sítios, enfim há várias bolsas neste momento para gerações mais novas, mas até estou a falar dessas instituições, com maior nome maior dimensão, às vezes há uma dificuldade, por exemplo, trocar exposições, trocar as posições entre os portugueses e estrangeiros essa troca, por exemplo, pode proporcionar a saída de artistas portugueses para fora, ou colecionadores, por exemplo, não temos colecionadores capazes de por obras de artistas portugueses em coleções internacionais, enfim há alguma falta de capacidade do meio, do estado, por exemplo, de projetar artistas portugueses no estrangeiro, de qualquer maneira eles porque eles vão sendo feitos de uma forma mais limitada e muito bem feito eu julgo que nunca será por causa do trabalho dos artistas que essa projeção não acontece com mais frequência ou em maior escala porque os artistas portugueses não deixou nada a desejar.

 

DM:

Muito bem Sara agora falando de outro grande nome, e outro grande artistas, português, é quase impossível dissociar a Sara de nome Júlio Pomar, conheceu-o em 2013, acompanhou o seu trabalho até ao fim e hoje continua a explorá-lo, pode-nos falar sobre a importância do percurso do Júlio Pomar na afirmação da arte contemporânea em Portugal e da arte contemporânea portuguesa, julgo serem questões diferentes na verdade.

 

SAM:

Sim. Enfim vou ter que o dizer de uma forma muito sucinta, como todos sabemos, eu até costumo dizer para começar, que na verdade Júlio Pomar constrói a história de arte com ele, a história de arte portuguesa é construída também com ele, porque na verdade os seus 90 anos de vida 70 e tal foram de carreira, porque ele começa a sua atividade logo no meio logo aos 16 anos até através da escrita de arte, e do desenho, do trabalho plástico, portanto eu digo sempre que a história de arte portuguesa foi construída com o Júlio Pomar, não só por ele obviamente mas também com ele, e esses 70 anos de carreira permitiram-o passar por tudo, por uma fase de contra regime, por uma fase em que o regime absorve, nós sabemos também historicamente, as suas forças contrárias, há uma  absorção do regime pelas suas forças contrárias, pela suas forças adversas, e portanto ele também passou por isso, nós sabemos que a dada altura se há uma fase no neo-realismo em que ele faz uma crítica social muito cerrada, depois numa uma fase mais tardia, não há instituição ou coleção onde ele não esteja, nós vemos as maiores instituições uma obra de Júlio Pomar nos escritórios das administrações, por exemplo, isto quer dizer que a dada altura ele foi absorvido por essas instituições de poder, mas enfim ele vai passando pelas diversas fases, eu acho que vai também deixando sementes e para mim o mais importante são essas sementes, e são o perceber agora no trabalho do Atelier-Museu eu tenho visto isso, particularmente quando se cruzam artistas de gerações mais recentes, foram sempre mais gerações seguintes, com o Júlio Pomar, são essas sementes que nós procuramos perceber, onde é há sementes largadas, e acho que podemos encontrá-las em diversos artistas, como aliás tem sido visto dos mais novos, às gerações mais veteranos, como eu digo, em todos os meios desde a escultura, à pintura, ao desenho, e aquilo que procuramos também é por um lado ver essas sementes e por outro lado ver como é que a obra dos artistas mais novos nos permite ter outra perspetiva sobre a obra de Júlio Pomar, e portanto ver como é que as obras também são trazidas para a frente, quando são cruzadas com outros artistas, e foi por isso que chamamos diversos artistas, começamos com o Rui Chaves, o Julião Sarmento, de seguida, o Pedro Cabrita Reis, a Luísa Cunha, entretanto tivemos gerações mais novas com a Sara Bichão e a Rita Ferreira, que estão aí em exposição, mas também tivemos com o Igor Jesus, o Nuno de Almeida e Silva, o Tiago Alexandre, temos tido exposições coletivas que integram obras de Júlio Pomar, portanto todas essas relações, ou movimentos de vai e vem, com muitas vezes eu digo, mostram essas sementes de Júlio Pomar na arte contemporânea, e nos artistas mais novo, mas também mostra o contrário, mostra como é que a obra dele mantém a atualidade ou pode ser trazida analisada no presente. Provando que há obras que reportam uma determinada década ou época mas que mantém a atualidade crítica e a atualidade plástica também.

 

DM:

Atualmente a Sara, como eu referi na sua biografia, é curadora e diretora do atelier Júlio Pomar, pergunto se no passado trabalhou de forma independente, e se sim, quais é que são as grandes diferenças que nota entre uma condição e outra.

 

SAM:

São duas são as duas condições muito interessantes, e de facto colocam problemas diferentes e têm condições diferentes. Na verdade eu comecei a minha atividade com muito pendente, de facto, e a trabalhar em várias instituições e o que eu posso dizer, e hoje até digo quando trabalho com o curadores mais novos ou com pessoas mais novas, eu digo que era importante que todos os curadores fossem também produtores, comunicadores, mediadores, mediadores somos sempre não é, os curadores são sempre mediadores sobretudo entre os artistas e as instituições, eu digo que os artistas não têm que “levar” com a instituição, neste sentido que a sua cabeça tem que estar livre para conseguir para criar, e portanto quem tem que fazer esse papel de mediação entre os artistas e a instituição é o curador, é uma das funções dele, aliviando o artista desse contacto, dessa burocracia, dessas forças, e é muito curioso porque eu hoje, enfim, à frente de uma instituição, eu tenho que saber ocupar as duas posições, e sou diretora da instituição mas quando sou curadora também tento não me esquecer que a minha função é libertar o artista da instituição, neste caso seria de mim própria, mas a ideia é que o artista não tenha que ser confrontado com as forças os problemas da instituição, e portanto libertá-lo da produção, libertá-lo dessas questões de prazos, libertá-lo de qualquer pressão, de qualquer tipo de pressão, e ir ao encontro das melhores condições de trabalho e de apresentação dos seus projetos, portanto quando um curador, que trabalhou independentemente, que começou a fazer projetos a nível individual, tem muitas vezes que fazer tudo, tem que conceber, tem que saber comunicar, tem que captar financiamento, tem que gerir equipas, tem que saber comunicar para fora, para os media, portanto fazer textos, e portanto tem que com acompanhar os artistas na sua produção e trazer-lhes o que eles precisam, e portanto quando um curador faz um trabalho independente, tem que ocupar todas as posições e quando chega depois a uma instituição isso é fundamental, porque se depara com todas as complicações das diferentes vertentes, portanto eu acho que foi uma escola trabalhar como independente, é sempre uma escola,  porque os projetos que desenvolvi como independente, e devolvi muitos, obrigaram-me a tudo isso: a conceber, a apresentar, a defender, a captar financiamento , a gerir equipas e a pôr as coisas em prática, e levá-las a bom porto, portanto e é nesse sentido que eu digo me nomeadamente quando criamos o prémio de curadoria do Atelier-Museu, que ainda teve bastantes edições, aquilo que nós procuramos com esse prémio, não havia nenhum na altura, foi fazer isso, foi criar condições trabalho e suporte para que os curadores devolvessem os projetos e os trouxessem a público mas fazendo-os passar por tudo isso, conceção do projeto, a defesa do projeto, a produção de todo o projeto, mediação entre a instituição, que neste caso era o Atelier-Museu e os artistas convidados, portanto eu acho que a grande diferença será essa se me perguntas, são um curador quando trabalha de forma independente tem que saber fazer tudo, mas também ganham uma experiência inigualável, acho que é assim uma escola, e depois quando está institucionalizado acho que tem que não perder a capacidade de se distanciar da instituição, como eu te estava a dizer à bocado, quando eu assuma curadoria, por exemplo do Atelier-Museu, tenho que ser capaz de me distanciar da instituição e pensar, não eu não estou a trabalhar só em prol da instituição, para criar números, ou esta terminada imagem para a instituição, eu estou a trabalhar para que o artista desenvolva o projeto com ele pretende, com as melhores condições possíveis, portanto a minha função aqui é distanciar-me da exposição para lhe proporcionar tudo aquilo o que for possível de acordo com as necessidades do seu projeto, acho que é um pouco isso, e acho que, um curador quando está numa instituição, tem que ser capaz de renovar metodologias, não se viciar com determinados métodos de trabalho, porque depois também metodologias próprias de instituições, metodologias próprias de cada grupo de profissionais, e portanto acho que é importante que nós mantenhamos capacidade de nos renovar também  a nós próprios, não são só os artistas que tem que se renovar e ser capaz interrogar o seu próprio trabalho e reinventar técnicas, nós também temos que fazer isso porque senão, nós também temos os nossos vícios, então quando se está em instituições, os vícios podem ser castradores, portanto acho que a diferença é essa, um profissional independente tem uma escola, tem que saber fazer tudo, é muito interessante ter uma perspetiva ampla e de todas as fases dos projetos, porque de facto quando os públicos só vem a fase final o projeto, e nós às vezes estamos enrolados nos projetos dois anos, um ano, e percebemos todas as fases do projetos, e as reviravoltas, e os vaivém, e o para trás e para frente, e as hipóteses que caem, mas muitas vezes das hipóteses que caem surgem outras mais interessantes, e são todas as reviravoltas, e essas dificuldades que nós aprendemos na carne, quando quando somos independentes, sobretudo a nível orçamental, os projetos quando somos dependentes são mais difíceis porque temos que convocar e trazer, aglutinar, à nossa volta uma série de forças: financeiras, políticas, de todo género, de comunicação, temos que agregar à nossa volta essas forças e portanto acreditar nos projetos estar convictos deles, isso é muito interessante, eu recomendaria a qualquer curador que quer ser curador, aliás eu digo isso, recomendaria qualquer profissional que fizesse um projeto independente, de raiz, sendo que não deixo quer de apoiar esses projetos, nomeadamente agora no Atelier-Museu, nós continuamos a chamar pessoas a começar, a arrancar neste meio, continuamos a chamar pessoas para escrever, para comissária, para organizar conferências, eu procuro também fazer esses desafios, aliás eu tive esses desafios depois de fazer projetos independentes, tive esses também por parte da instituições, eu fui convidada pela Culturgest, por exemplo, para fazer exposições itinerantes da sua coleção no Museu de Elvas, no museu de Leiria, no Algarve, portanto eu levei a coleção da Culturgest a vários museus e isso é uma experiência também inigualável, e quando as instituições depois nos começam a dar suporte a alguns níveis, começam a libertar-nos para outros e nós podemos também focar ainda mais na parte da conceção, na parte da curadoria, enfim vão havendo experiências a diferentes níveis que nos vão estruturando e consolidando conhecimento.

 

DM:

Exatamente, pergunto à Sara a última questão, e a inevitável questão, tem alguns projetos para o futuro que queira, possa revelar e já agora que futuro é que é e vem, como é que vai ser reentrar no museu quando a pandemia estiver de alguma forma erradicada?

 

SAM:

São perguntas sempre difíceis. Eu penso que os artistas e os curadores, enfim os profissionais desta área, nós estamos sempre numa condição de futuro futuro no sentido em que, justamente no que estava a dizer, os projetos que estamos a devolver não tem resultados imediatos, nós estamos sempre projetados, nós projetamos realidades, projetamos sonhos, projetamos expetactivas, o nosso trabalho é esse, é criar horizontes de expectativas, horizontes de entusiasmos, é por isso que não somos movidos e em parte o nosso trabalho é sempre nessa condição de futuro, eu vou fazer uma exposição que… je os artistas também,  estão sempre a fazer obras, estão sempre já projetados nessa condição de futuro , nessa realidades que estão a projetar. A próxima exposição já estou a fazê-lo, já estou numa condição de futuro, estamos a montar no Atelier-Museu uma exposição das aquisições a Câmara Municipal de Lisboa, mostrando também o que é que os artistas estão a fazer neste período de suspensão, porque na verdade os períodos de confinamento, acho que são também suspensão, nós estamos a trabalhar para o futuro, mas numa condição meio suspensão, de pouca possibilidade de ação. Para o futuro não dispenso as edições, e a publicações, estou empenhada numa série de publicações que quero muito ver tingidas no papel, ver impressas, e depois de uma forma mais lata, vou fazer exposições quer fora da instituição, quer dentro da instituição, mas fora também, com artistas que eu amo e como instituições, em lugares que eu amo, porque eu acho que é isso, os artistas e os curadores estão sempre também a dar provas de amor, à atividade, uns aos outros, eu vou fazer projetos acho que incríveis, com pessoas que eu amo, eu só digo isso porque, não quero já revelar, mas já estou neles. Acho que não vou dizer nada sobre esse projetos porque, como estava a dizer à pouco, os projetos são feitos de vaivém, pra trás pra frente, são feitos de hipóteses que caem e voltam a refazer-se, isso vai ser sempre assim com as exposições, nomeadamente com essa que eu tive ai no Centro de Artes de Águeda e que ainda está patente, foi uma exposição que a meio teve uma reviravolta porque justamente por causa da pandemia muitas obras que eu tinha escolhido não puderam ir para o CAA e portanto tive que escolher outras a meio do processo, que alteraram todas exposição, que me obrigaram a refazer toda a exposição, mas isso é que é interessante nos projetos, que me fizeram ter ansiedade, que me fizeram temer que a coisa funcionasse, que me fizeram sorrir novamente, eu acho que temos sempre nisso, nessa criação de expectativas e é isso que nos move, portanto temos sempre numa condição de futuro, e eu só posso dizer que vou fazer projetos que eu amo com pessoas que eu amo, sempre nessa condição de projeção.

 

DM:

Muito bem, Sara em nome do Centro de Artes de Águeda e da Câmara Municipal de Águeda, ter aceitado esta agradável entrevista e esperar que essa condição de futuro seja a mais agradável possível e que também venha o mais rápido possível .

 

SAM:

Muito obrigada Daniel é só dizer eu acho que o meio, os artistas, são sempre os resistentes, em geral as pessoas do meio, do nosso meio, são muito resistentes porque há que ser muito bravo para se manter essa atividade, que é pensada por muitos setores da sociedade como uma atividade dispensável, porque não é uma atividade primária, não é assim que eu a penso, eu penso como uma atividade absolutamente indispensável, fundadora, porque quando não há representação não a vida, nós temos que nos representar e inventar essas realidades e saber representar essas realidades e esses futuros, e eu acho que os artistas estão ansiosos por mostrar o que estão a fazer, e não esperem nunca é que os artistas desistam, porque os artistas os curadores e os profissionais desta área são incapazes de desistir, portanto tu perguntaste-me o que é que vai acontecer a seguir, como é que vai ser a realidade futura, pode não ser uma realidade espectacular nos próximos meses, porque há um processo também de desconfinamento e pôr as coisas andar, que requer algum tempo, mas vai ser de florescer de certeza absoluta isso eu não tenho qualquer dúvida.

 

DM:

Fantástico, Sara mais vez muito obrigado pela entrevista e tudo de bom para o futuro.

 

SAM:

Muito obrigada, força, até já e obrigada.

 



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=6X_k1ixcJCQ&t=2s

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA

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