EM PALCO COM ALBANO JERÓNIMO

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EM PALCO COM ALBANO JERÓNIMO

SINOPSE

Albano Jerónimo é o convidado desta semana do ciclo de conversas "Em palco com..."

Artista multifacetado conta com uma vasta carreira na área do teatro, cinema e televisão e é ainda cofundador da companhia Teatro Nacional 21 que nos trouxe "Veneno" ao CAA em 2019.

Para 2021 está prevista a apresentação da peça "O Amante" e uma nova masterclass lecionada por Albano Jerónimo.

Ao longo desta inspiradora conversa Albano Jerónimo mostra-nos o seu olhar sobre a cultura, a educação, a inclusão pela arte, entre outros, e de como todos estes aspetos estão ou devem estar interligados.
 


Daniel Madeira:

 

Boa tarde Albano Jerónimo, antes de mais agradecer ter aceitado o convite de integrar esta rubrica do Centro de Artes de Águeda “Em palco”, desta vez com Albano Jerónimo, mais uma vez com Albano Jerónimo , na verdade, mas ainda virtualmente, por força da pandemia.

Vou ler uma pequena  biografia, acerca do Albano e depois vamos começar a conversar um bocadinho, poder ser?

 

Albano Jerónimo:

Força, claro que sim vamos a isso.

 

DM:

Albano Jerónimo, frequentou o Curso de Teatro em Formação de Atores da Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. É Cofundador da companhia Teatro Nacional 21.

Em Teatro trabalhou com: Luís Fonseca, Ricardo Gageiro, Fernanda Lapa, Cristina Carvalhal, Diogo Infante, João Mota, Isabel Medina, John Retallack, Tiago Guedes, Nuno Carinhas, Ricardo Pais, Nuno M. Cardoso, Rui Mendes, Beatriz Batarda, Cláudia Lucas Chéu, Nuno Cardoso, Mickael de Oliveira, entre outros nome igualmente importantes.

Recentemente, ou pelo menos na altura desta biografia,  foi intérprete em "Quarteto" (Heiner Muller), encenado por Carlos Pimenta, "Pocilga" (Pier Paolo Pasolini), dirigido por John Romão e "Sócrates tem de morrer" e a “Vida de John Smith” ambos encenados por Mickael de Oliveira, Coriolano (Shakespeare), encenado por Nuno Cardoso e "O Falecido Mattia Pascal" (Pirandello) com Jorge Andrade na Mala Voadora na altura. Estreou-se como encenador no Teatro Nacional D.Maria II Lisboa com "Um Libreto para Ficarem em Casa Seus Anormais" a partir de Rodrigo Garcia e rescrito por Mickael de Oliveira, numa Ópera Tropical e de em seguida com “Veneno”, que tivemos a oportunidade de ver aqui no Centro de Artes de Águeda e sobre o qual falaremos, de Cláudia Lucas Chéu em digressão, lá está,  por vários teatros do país.  Também evidentemente temem grande trabalho na área do cinema, trabalhou com: Luís Fonseca, José Fonseca e Costa, Raúl Ruiz, Sérgio Graciano, Marco Martins, Francisco Manso, José Farinha, Sandro Aguilar, Pedro Varela, Miguel Gaudêncio, Gonçalo Galvão Telles, Solveig Nordlund, Vicente Alves do Ó, também falaremos iremos falar sobre essa experiência. A nível televisivo teremos que destacar a série "Vikings"  em que interpretou a personagem Euphemius, uma produção da MGM e o History Channel e também destacar a série “Sara" da RTP1, de Marco Martins. Nomeado para vários prémios, destacamos de melhor ator em "Anestesia" de Pedro Varela no ShortCutz, vencedor do prémio para melhor ator de cinema no Festival de Cinema Euphoria com "Florbela" de Vicente Alves do Ó, vencedor do prémio Sophia de melhor ator secundário em "Linhas de Wellington" de Valéria Sarmiento, e nomeado para melhor actor em série no Festival de Televisão de Monte Carlo em "Cidade Despida", nomeado também para um Globo de Ouro de teatro com "Menina Júlia" de August Strindberg, entre outros, naturalmente.

E agora faço a ponte para o Centro de Artes de Águeda, para o nosso público que está de certo modo habituado a uma presença regular do Albano Jerónimo, quer enquanto actor quer enquanto encenador. Em quase 4 anos de atividade do CAA, esteve presente em “Florbela”, “Veneno”, “Romeo loves Juliet” e até numa masterclass de interpretação. Não fosse esta pandemia, e já teríamos assistido à peça de teatro “O Amante”, encenada pelo Albano e a uma nova masterclass, que será algo como “um coaching personalizado em cenas e monólogos”, e já lá vamos a esta frase.

Em suma, esta pequena amostra permite perceber este lado multifacetado do Albano que aliás se percebe, evidentemente, em toda a sua carreira. Comecemos pelo filme de Vicente Alves do Ó, como foi a experiência de integrar ficcionalmente a biografia de Florbela Espanca? 

AJ:

Obrigado desde já pelo teu cuidado e também um prazer pra mim estar aqui a falar para o público de Águeda, mas não só para o público de Águeda, porque, ou seja, o Centro de Artes e também um pólo que sequer múltiplo e que seja uma espécie de espelho no reflexo todos artistas que aí passam e que se contaminam pelo país fora por outras salas, e não só, desde já o meu obrigado também. 

Com Vicente Alves do Ó, já lá vão uns anos, esse filme foi dos primeiros filmes do Vicente Alves do Ó, foi creio eu, que o início da caminhada sobre todos os filmes , uma espécie de biopic , que o Vicente levou a cabo agora com a Almada Negreiros, que vai estrear, o Al Berto, eu creio que esse foi o início desse tríptico. Foi uma viagem, gostei muito de fazer esse filme, porque estávamos noutros tempos, noutros tempos e falo do Ivo, a Dalila Carmo, o próprio Vicente estávamos todos com um enorme vontade de fazer cinema, com uma enorme vontade sobretudo trabalharmos juntos, e então eu lembro-me das várias coisas esse filme, mas o que mais me marcou foi toda a união entre essas quatro pessoas mencionei, entre eu, o Ivo, a Dalila e o Vicente, e tudo isso, fomos tecendo uma teia, que o objetivo principal sempre em tudo o que eu faço é falar de algo que está acima de mim, e neste caso era falar ou retratar a vida da Florbela que foi de facto uma mulher de coragem, uma espécie de cometa que passou por este céu e que deixou o seu trabalho e a sua vida e o Vicente quis de certa forma retratar e honrar essa passagem desse cometa Florbela pelo nosso país. Guardo emendas recordações mas a enorme vontade de querer fazer algo que está acima de nós e respeitar sobretudo, e no meu caso porque eu fazia uma personagem que de fato existiu, partiu de uma pessoa concreta, no meu caso era tentar não estragar ou respeitar ao máximo toda a parte mais emotiva ou emocional associado a Florbela e a obra dela

 

DM:

Mudando agora de assunto, em 2011 surge a Teatro Nacional 21, fundada pelo Albano Jerónimo e  pela Cláudia Lucas Chéu. Para além dos dois, também integram a equipa Luís Puto, Francisco Leone e Rui Monteiro. A companhia “dispõe-se a desestabilizar e a promover a discussão na luta por este desígnio cultural comum”. Agora pergunto, de que forma é que esta premissa se reflete em “Veneno”, peça que foi levada a palco aqui mesmo de onde entrevisto o Albano?

 

AJ:

Reflete-se de várias maneiras, reflete-se no nosso trabalho, seja ele estético, nas instalações que fazemos e que montamos em cena, no tipo de texto que escolhemos, ou seja ,o nosso trabalho é baseado quase todo se não todo, fizemos aí uma quebra no nosso percurso com "O Amante” um texto de Harold Pinter, um grande texto que foi por isso que escolhemos, mas tudo nosso trabalho baseia-se em dramaturgia portuguesa contemporânea, no fundo é deixar ou criar uma espécie de espólio para quem virá depois nós, trabalhar os escritores e a escrita em português para palco, esse foi um dos nossos dignos e é uma forma de, ou seja, é uma premissa para desestabilizar, e há associado a essas palavras e que muito bem estão e acompanham digamos a introdução à nossa companhia, há também uma palavra que é inquietação, esta inquietação que se vai mudando, ou seja, que se vai mudando ao longo dos vários trabalhos e no “Veneno” o que se passou foi exatamente isso, nós partimos sempre de coisas concretas e no caso do “Veneno” houve um levantamento exaustivo de coisas altamente grotescas, assassinatos grotescos de violência doméstica vários géneros e vários tipos infelizmente, e escolhemos um em particular que foi localizado num subúrbio e tudo isto para te explicar a nossa ideia de desestabilização, passa exatamente por no fundo, estávamos em pleno momento do Trump,  de Bolsonaro, de Putins, de Chávez, ou seja de tudo isso acontecer, a extrema direita a crescer cada vez mais na Europa, e achamos que é melhor forma de falarmos sobre essas questões sobre estes egos que se estavam a cimentar no mundo, era criar um objeto artístico que falasse o que os expusesse este-me este modus operandi destas cabeças, no fundo quisemos expor estes raciocínios destas pessoas xenófobas, homofóbicas, violentissimas, e criámos esta figura do pai que existe no “Veneno”, esta figura que deambula entre o grotesco e um lado hiper realista, no fundo isto para te falar o quê, encontrar-se com uma ópera, como tu mencionaste que foi a minha primeira encenação no Teatro Dona Maria II que era algo que cruzava várias linguagens em cena, o vídeo, a dança, a ópera, a música, o teatro, no fundo são tudo manobras que nós queremos concretizar em palco e são manobras essas que continuam, ou seja,  é uma espécie de onde é que quando chega ao areal que se espalha, ou seja, o que eu quero dizer com isto, o nosso trabalho, como mencionaste muito bem, o nosso trabalho de cena é sempre complementado com workshop, masterclass, com trabalhos de vídeo, coisas paralelas ao trabalho cena porque achamos que o nosso trabalho ou a nossa responsabilidade social, se quiseres, passa exatamente por sermos um pouco transversais aquilo que fazemos, principalmente em cena, obviamente aquilo que fazemos em cena é por si só suficiente, ou poderá ser, mas queremos alargar e abraçar mais zonas de comunicação. Para fechar esta ideia de desestabilização que a TN21 se propõe a fazer todos os dias em todos os trabalhos, acreditamos que aquilo que fazemos tem que ver com a comunicação, a companhia tem orgulho de se inscrever no tecido cultural, onde esta pessoas querem ser agentes de comunicação, trabalhar um pouco, como o Roberto Castelluci fala, ele diz que a zona de trabalho dele começa quando um ator emite o som em palco e faz aquela viagem para o espectador, portanto nosso trabalho foca-se exatamente nesse arco entre o som que é emitido e o espectador que ouve e que recebe, portanto isto para te explicar, que o nosso trabalho é tornar-nos cada vez mais especialistas da comunicação, como ela é emitida, a qualidade da mensagem, ou não há mensagem, ou como é que a transmitimos, com som ou sem som, por imagem, com corpo ou sem corpo, no fundo somos uma espécie de espectro que quer ser uma espécie de reflexo de outras coisas que se espalha de mil e uma formas pelas pessoas, e a desestabilização passa por ai, este lado quase punk de nós querermos inscrever o nosso trabalho no nosso país e no nosso tecido cultural, como disse há pouco.

 

DM:

Exatamente e a próxima questão, acabou já por me responder, na altura em “Veneno” houve uma masterclasses de interpretação uma oficina de escrita lecionada pela dramaturga e argumentista Cláudia Lucas Chéu. Ia perguntar  ao Albano como é que avalia essa mediação e formação através da arte, mas já me respondeu tendo em conta todo o pretexto e pressuposto da companhia. Avançamos ainda nesta questão o da pedagogia e do lado formativo. A próxima masterclass que o Albano virá a lecionar no CAA, assim que a pandemia o permita, o Albano descreve-a como um “coaching personalizado em cenas e monólogos”. Eu achei muito curiosos a apropriação do termo coaching, pois não o vemos de certo modo integrado no universo teatral. E gostava que o Albano pudesse explicar isto, como é que se apropria do termo coaching para uma missão que se quer teatral, digamos assim. 

 

AJ:

Muito bem, uma boa pergunta essa. A ideia de coaching, passa exatamente por eu querer desenvolver, com as pessoas que se inscreverem como é óbvio, toda uma partitura sobre as falhas, sobre as falhas e os erros, eu acredito que verdadeiramente o que me distingue de outro ator do mundo, além do meu corpo a minha voz enfim tudo isso, além disso o que de facto difere o meu trabalho o que imprime uma certa qualidade do meu trabalho são as minhas falhas e os meus defeitos. Esse coaching ou essa palavra vem anexada deste plasse, que é esta coisa da falha, a falha aqui é um ponto fundamental para o trabalho porque de certa forma nunca ninguém me disse que o erro era bom, ou erro era importante, ou erro de facto “se calhar era a tua mais valia”, porque eu encaro sempre o erro ou a falha como algo extremamente fértil para uma aprendizagem e, por vezes ou a grande maioria das pessoas, eu nas masterclass que tenho dado, o erro, hoje em dia sempre foi mas hoje em dia, cada vez mais está a ser maquilhado parece que somos obrigados a entrar numa certa norma numa certa forma de fazer as coisas e a nossa vontade individual não existe ou não há espaço para a nossa vontade, ou não há espaço para as nossas falhas e para o nosso corpo para os limites do nosso corpo. Posto isto, eu acredito que essa palavra coaching tem que ver com a trazer à superfície exatamente estas qualidades, trabalhar os defeitos expor as facilidades, porque a partir daí conseguimos de facto ter o coaching, ou seja, conseguir educar essas falhas e potenciar e virá-las a nosso favor, e essa palavra vem um pouco, se calhar coaching ou em português diria educar o gosto ou educar a falha ou erro, sinceramente com as experiências internacionais que tenho tido, há sempre uma tendência, não só por seres português, ou seja, é um mercado que não está muito marido internacionalmente, nós somos um povo latino, muitas vezes associado a uma espécie de relaxe profissional, quase, e responsabilidade profissional e lá fora as experiências, que eu tive pelo menos, são ótimas montras para tu te encontrares neste panorama. Nós somos atores incríveis, nós somos um povo altamente responsável que gosta muito de trabalhar e temos ótimas valências e no fundo esta coisa dos erros que  te estou aqui a falar, no fundo se pudermos aqui acoplar esta perspectivas várias que eu te estou a dar, e falo somente da minha experiência pessoal porque é sobre só isso que eu consigo falar, digamos que quero cozer aqui um bocadinho estas ideias porque acredito que é a base para qualquer trabalho, seja ele teatral cinematográfica ou televisivo, acredito que trabalhando esses monólogos ou esses diálogos que sejam, ou mesmo às vezes nem sequer trabalhando uma coisa ou outra, só mesmo falando e trabalhando a pessoa pura e dura, eu acho que isso é um desbloqueador brutal para aquilo que se pode vir a retirar mais tarde para um futuro trabalho ou até mesmo para a tua vida, se quiseres, no fundo é um pouco dentro destes parâmetros que nós usamos a palavra coaching



DM:
 

Acho que ficamos esclarecido de certeza

Agora falando de outra peça, “Romeo loves Juliet” na qual o Albano Jerónimo também participa, no caso a sua presença é feita através de vídeo. E perguntava-lhe como é que vê a experiência do “Romeo Loves Juliet” e fazer-lhe uma pergunta algo arriscada mas que de alguma forma foi uma temática que também abordámos com o Marco Paiva, que também já entrevistamos nesta rubrica, de que modo esta peça espelha a ideia de inclusão pela arte?

 

AJ:

De várias formas, o trabalho com a Crinabel e com o Marco Paiva, que eu adoro o Marco Paiva, adoro o trabalho dele, começou esta parceria com a ópera com o “Tivessem ficado em casa seus anormais”, começou exatamente com esta ideia de desmistificação de guetos sociais, esta quebra de barreiras e diluir um bocado estes conceitos, porque a maior parte das vezes não sou associado a pessoas com deficiências intelectuais, com às vezes até mesmo por opções sexuais, as pessoas hoje são ostracizadas, as pessoas hoje são vítimas de racismo até pela cor de pele, como é óbvio, todos estes pequenos guetos vem, ou seja, a forma de os combater passa cada vez mais por nos pormos a nós criadores à prova com outras pessoas, outras mercados, outras línguas e outras formas de estar e ver o mundo e o trabalho com a Crinabel veio exatamente nesse sentido de me educar a mim e a toda a equipa nessa perspetiva e nesse diálogo que está estabelecido com estas pessoas que são postas à margem, ora seja pela sua deficiência, ora seja porque o corpo delas tem uma forma diferente de ser ou de andar ou de falar, soam sonoramente diferente, então isso são mecanismos que nos afastam de uma certa normalidade e que tu por desconhecimento afastas, e portanto este trabalho teatral ou esta educação pela arte que existe, esta forma de estar no mundo pela arte, que é feito e levada a cabo pelo Marco Paiva com o Crinabel, há muito tempo, e agora com a Terra Amarela, esta parceria que se estabeleceu connosco, e vai continuar, por acaso é curioso que vai continuar este ano num novo formato, que é muito engraçado, ou seja no fundo é um caminho e acredito que a melhor forma de incluir ou de falar sobre estas exclusão é exatamente trabalhar, trabalhar no terreno e confrontar o público com estes corpos, com estes sons, com estas formas de trabalhar, de andar, de falar, acho que é a melhor forma para nos educarmos coletivamente, porque acho que todos esses preconceitos e guetos surgem, para mim, a maior parte das vezes, senão todas as vezes, por desconhecimento ou por ignorância, e que a arte e o teatro, artes de palco, sirvam exatamente para desbloquear todas estas coisas e aproximar as diferenças, porque acreditamos, eu e o Marco, no mundo como uma espécie de floresta tropical, um bocado com uma ópera, que esta imagem de olharmos para uma Amazônia bruta, que é bela, e que é assustadoramente bela, e o que é que ela tem de belo, não ó a sua geografia, todo o lado estético, puro e duro mas tem também todo este lado da diferença, a diversidade que existe e é essa diversidade que nós queremos trabalhar e trazer à superfície cada vez mais.

 

DM:

E nesse seguimento concluir este tema digamos assim com uma pergunta que fiz exatamente ao Marco Paiva vou fazer agora ao banho Johnny sendo que o público nacional está mais preparado para olhar além da norma

 

AJ:

Eu acho que sim, eu acredito que sim porque que o teatro é uma ferramenta incrível para educar, as salas de espetáculo pelo menos dos espectáculo que tenho feito, 80% do público é jovem e acredito que este trabalho que é feito pelos artistas, pelo todo o tecido cultural em Portugal, terá que ser fortalecido pela educação, ou seja, digamos que o paradigma da Cultura ,o facto de não ter o orçamento que tem hoje em dia, por exemplo, só é potenciado se houver o movimento brutal da nossa educação, na verdade cruzar os dois ministérios, cultura e educação, de forma clara e concreta, e enquanto não houver essa revolução na educação acredito que a cultura estará sempre um bocadinho a reboque ou sempre a viver de momentos, de happenings,  de movimentos de companhias de espectáculos aqui e acolá que facto dinamizam mais ou menos pessoas (…).

Mas no fundo é um pouco isso, acreditamos que de facto esta combinação terá que ser polida e posta em prática de uma vez por todas, e parece que é um bloqueio, há um muro tremendo entre estes dois mundos e estas duas realidades, entre educação e cultura, e pronto e estas tentativas permanentes de galgar o muro e quebrar o muro

 

DM:

Exatamente muito necessárias.

Falemos agora sobre “O Amante”, peça de teatro programada para o CAA e que estamos à espera que a pandemia permita, que aconteça.

Tenho aqui um pequeno excerto da sinopse, se calhar fria esta leitura, não me parece muita extensa e depois o Albano poderá explicar o que é que o público pode esperar desta peça: 

“Há muito que nos interessamos pelas emoções, pelo mundo dos sentimentos, e que os trabalhamos - como e por que nos emocionamos? Como é que usamos os sentimentos para construir as nossas personalidades? E como é que as emoções ajudam ou prejudicam as nossas intenções? Se quisermos compreender os conflitos e as contradições da condição humana, precisamos de reconhecer a interação, o jogo, tanto favorável como desfavorável, entre sentimentos e raciocínio.”

 

AJ:

Este texto, é um dos motivos porque nós nos devíamos do nosso caminho da dramaturgia portuguesa contemporânea, foi exatamente nesse sentido, esse texto por acaso é um bom apanhado ou é bem enquadrado na paisagem d’O Amante de Harold Pinter, ou seja, vivemos no mundo cada vez, todos nós sabemos, com  uma velocidade... a informação está cada vez mais, são para o pop-ups permanentemente nossas vidas, nossos telemóveis, nos computadores, iPads,  tudo isso, e a relação entre as pessoas está cada vez mais desumanizada ou robotizada, se quiseres, e a pandemia veio um bocado adensar um pouco essa distância ou esse distanciamento. O facebook vende uma ideia, por exemplo eu não tenho facebook, mas o facebook vendo uma ideia de, fica em casa no teu conforto sozinho e faz montes de amigos, não poderia haver um contra-senso maior e então este texto e a vontade de fazer este texto por parte do Teatro Nacional 21 vem exatamente dentro desta leitura de querermos aproximar o corpo da palavra, e este texto do (Harold) Pinter, em particular, foi desenhado inicialmente pelo (Harold) Pinter para atores entre os quarenta e poucos, vá lá finais dos trinta início dos quarenta por aí, e nós quisemos desde o início que fossem atores mais velhos e porquê? Porque queremos quisemos ainda adensar mais esta perversão, esta possível previsão das palavras, este jogo entre duas pessoas, entre o homem e a mulher, o (Harold) Pinter sugere isso forma muito clara, essa perversão, como é que não se esgota um diálogo entre um casal, que está junto há imenso tempo, como é que não se esgotam as próprias pessoas nessa mesma relação, como é que tu te reinventar, no fundo quando assumes um pacto com alguém, seja ele íntimo sexual, profissional até, como é que tu consegues manter isso de uma forma saudável, como é que tu convives com isso. O (Harold) Pinter faz essa proposta e desenho este diálogo, esta espécie de dança entre dois corpos, e quisemos que esta dança fosse ainda mais potenciada com o facto de eles serem mais velhos e porquê? São pessoas com mais experiência, são pessoas que  já passaram por muitas mais relações, tem uma outra perspetiva da vida, que eu não tenho ainda mas espero com a idade deles e chegar a idade deles, dos atores em causa, com a cabeça que eles têm, no fundo foi um bocado quebrar esta roda viva que existe na ausência de corpo, e acreditamos que isto é de facto um perigo para uma espécie degelo que está acontecer neste momento, agora é que estamos a falar, os pólos estão a derreter, para evitar ou para inverter um pouco essa tendência do mundo que é este degelo este afastamento do corpo e da palavra, porque na verdade a tua atrás de uma câmara podes ser tudo, tu atrás de um telemóvel podes ser a pessoa que tu quiseres, mas na realidade até que ponto é que tu suportas o cheiro da outra pessoa. Então este texto é um convite a essas pequenas coisas, um convite ao contacto, ao confronto e à responsabilização das tuas escolhas, que a maior parte das vezes é isso é isso que assistimos hoje em dia, é essa desresponsabilização permanente das tuas ações, das tuas palavras, daquilo que imprimas no outro e o (Harold) Pinter coloca duas pessoas numa mesma arena ,numa mesma casa, para se confrontarem com as suas escolhas, com a sua cultura e aquilo que aprenderam nas suas vidas e põem-nas a dançar e depois essa dança pode ser mais ou menos perversa, pode ser mais ou menos jogada, e pode ser altamente honesta e até que chega a um ponto onde os atores estão nus à frente um do outro, não literalmente, mas nus por dentro.

 

DM:

Falamos de Custódia Gallego e Virgílio Castelo, são os dois atores que personificam essa dança e iria perguntar ao Albano como é trabalhar na ótica do encenador, com nomes tão consagrados como estes?

 

AJ:

A nossa ideia do Teatro Nacional 21 é sempre desestabilizar ou despentear quem trabalha connosco, ou seja, nós temos nosso produtor um deles que é o Francisco Leone, nós fomos buscá-lo à escola, ele tinha acabado curso, fomos buscá-lo à escola não tinha experiência absolutamente nenhuma, nós investimos sempre e todos espectáculos tentamos ter sempre alguém, ou abrimos casting ou tentamos  incluir sempre alguém que, ou das duas uma, ou não faz parte da nossa dinâmica normal trabalho ou que não tem experiência alguma, então tentamos sempre abrir o leque pra isso acontecer, o Rui Monteiro que é o desenhador de luz absolutamente incrível e que. Já está no mercado há alguns anos, começou connosco, portanto orgulhamo-nos muito de ser uma espécie de padrinhos desses percursos. Desafiar o Virgílio Castelo e trabalhar com o Virgílio Castelo e com a Custódia Gallego, vem nesse sentido, desafiar aquele gestores que já tem uma quilometragem, como se diz na gíria teatral, de palco enorme, como é que nós não nos podemos desestabilizar, como é que nós os podemos desafiar a fazer uma coisa que se calhar ainda não tenham feito, ou se tenham feito não tenha sido assim, e o que é curioso é que eles ao início disseram-nos que tinha um bocado de receio trabalhar connosco porque sabiam que o nosso trabalho era um bocadinho às vezes punk, mais rufo, um bocadinho mais duro, e então tinham um bocado receio de não se adaptarem um bocado à ideia de punk que nós temos nos nossos trabalhos, e a reação, à abertura, a generosidade que eles tiveram para trabalhar com gente mais nova, gente que na prática sabe menos que eles, ou no mínimo sabe outras coisas diferentes deles, então foi uma troca extremamente franca altamente produtiva isso está presente no espetáculo, a entrega que eles tiveram e demonstraram ao longo destes ensaios foi absolutamente única, são actores inteligentes, além de serem altamente talentosos, são atores que se escutam, que se escutam um ao outro e que escutam o seu corpo também, e que sobretudo não querem cristalizar, não querem fossilizar, não querem ser uns dinossauros, não há nada mais bonito que isso, mais encantador do que ter atores à tua mercê, neste caso mais velhos, que mostram esta disponibilidade e abertura para aprenderem e no final das contas este espectáculo para eles e para nós, com muita alegria, foi um verdadeiro desafio, eles ainda hoje falam deste espetáculo porque é um desafio, se calhar não vou desvendar muito porque isso vai falar um pouco do espetáculos em si, mas é um desafio tremendo para estes atores e é um exercício mental incrível para quem for a Águeda ver este espetáculo.

 

DM:

Fica então o convite. 

Avançando eu ia perguntar quais são os instrumentos de resposta por parte da TN21 a esta pandemia, mas parece-me que o próprio “O Amante” é uma resposta fantástica. Não sei se haverá mais algum?

 

AJ:

Há. Há uma inquietação latente, é a nossa gasolina, é sem dúvida a nossa energia.

O TN21 teve uma resposta bastante musculada a estes novos tempos que estamos a viver.

Desenvolvemos vários projetos, entre os quais um espectáculo totalmente feito de raiz para on-line, estou a falar de “O corpo de Helena”  um texto de Paulo da Miranda, onde desafiamos os atores, que estava em Braga, Porto, Lisboa e Algarve, nas suas casas, tivemos  um desenhador de luz que aproveitou as luzes que as próprias pessoas tinham em casa, o cenógrafo idem aspas aspas, ou seja aproveitou as condições que os atores tinham nas suas casas para desenharmos uma mesma dramaturgia e tudo isto foi uma resposta da TN21, tivemos outro espectáculo “Veneno” que fizemos no formato on-line, no dia mundial do teatro por exemplo, tivemos uma programação durante o dia todo, onde convidámos 21 atores para, fazendo aqui esta ligação com o nome da companhia, onde foram ao longo do dia lindo poemas, ou peças, ou trechos de espetáculos que tinham feito, tivemos o espetáculo à noite, tivemos colóquios durante esse dia, apresentámos “O Corpo de Helena”, criámos juntamente com estas iniciativas três apoios a jovens atores que tinham acabado Conservatório nesse ano, e essas bolsas foram traduzidas em espetáculos que foram também transmitidos através das nossas plataformas on-line. No fundo estou-te a falar que exibimos, a brincar a brincar, cinco espectáculos on-line, com bolsas de apoio, workshops, conversas ou seja, tivemos uma atitude que revela sobretudo uma vontade enorme de continuar e não quebrar este elo de ligação com o público e continuar a produzir e a manter as pessoas ávidas, e de certa forma a colmatar a oferta cultural que rareou ou escasseou.

 

DM:

Completamente. Para terminar,  Albano a pergunta inviável, o futuro, se nos pode revelar alguns dos seus projetos ou de que forma é que olha para este futuro pós pandemia ou não, mas treinar assim com uma visão do que é que pode vir aí.

 

AJ:

O que pode vir aí? Não sei. Espero que, agora fazendo aqui um parênteses, acho que se há coisas que nós podemos apanhar desta pandemia, destes confinamentos é que de facto nós, de facto tenhamos a capacidade de rever as nossas prioridades, a importância que tem o outro, ao sermos confrontados com as nossas escolhas o que é que isso muda em nós, e espero que mude para nos aproximar mais do que é essencial, o que é essencial é o outro, é o respeito pelo outro, a natureza, a forma como a consumimos, a forma como estamos na vida e no mundo, e no fundo é um alerta para mudarmos os nossos paradigmas, a forma como vemos as coisas e mundo. 

Posto isto, como é que eu vejo o futuro, como o Jorge Palma diria, “com um otimismo cético”, espero e desejo que a transformação se dê, espero que o mundo caminho para esta consciência global, que fazemos todos parte de uma mesma espécie, independentemente de cor, raça, credo, religião, que seja, o futuro pra mim passa, sendo concreto, pela estreia de um filme que fiz com Edgar Pêra, em plena pandemia, a partir de Fernando Pessoa que se chama Nothingness club” , onde eu faço o Álvaro de Campos, é um trabalho que ainda me está no corpo, a obra do Pessoa não me sai da cabeça, desde miúdo, o Álvaro Campos como mergulhei fundo em toda esta dinâmica e estes mundos continua a habitar a minha cabeça este, no fundo que eu adorei fazer, por várias razões mas sobretudo porque as pessoas estavam em confinamento, foi um filme feito em confinamento, ou seja, ninguém sair para lado nenhum, toda a gente a ser testada a toda hora, então isso aguçou o apetite e a vontade de fazer coisas, e a linguagem que tínhamos ali, a ferramenta, é o alfabeto, é cinema como a câmara que, obviamente tudo unido ou besuntado com as palavras do Pessoa, tudo isto criou ali uma espécie de espiral incrível de vontade e de frenesim de querermos fazer este filme. Estou muito curioso com este trabalho, não sei o que é que resultou, fiz questão de não ver, o que é que estava a ser feito, portanto estou com muita expectativa em relação a este filme. Fiz também um filme com dois realizadores jovens franceses, o “L’enfant”, que vai sair creio eu ainda este ano, uma produção de Paulo Branco, e estou um bocadinho à espera também de tentar perceber como é que esta relação se estabelece, adoro trabalhar com gente nova, é uma forma de não cristalizar também, este “L’enfant” tem uma estética absolutamente bela, com fotografia de Mário Barroso, portanto estou com muita curiosidade. O que vou fazer em breve, tenho um projeto internacional em mãos que não te posso falar ainda sobre ele, mas que me vai obrigar a sair do país nos próximos tempos, é um projeto que nunca abracei na vida é algo que nunca fiz, em breve irá saber de outra forma, estou com muita expectativa em relação a este trabalho sobretudo pelas pessoas que vão estar envolvidas. Vai estrear dia 12 neste mês de março a série que fiz para a Netflix o “The one”, uma série filmada em Londres, Bristol, Cardiff, Newport e Tenerife, portanto andamos um bocado nesta dinâmica, ou “The One” fala, assim muito rapidamente, sobre alguém que é uma espécie de comunidade secreta, ligada ao governo, uma comunidade científica que descobriu que tu tens um perfect match do teu ADN, é um perfect match de outra pessoa e qualquer parte do mundo, e a partir do momento em que descobres essa pessoa escusas de procurar mais, e então há toda uma estrutura associada esta série, que é manipulada politicamente, socialmente falando, diplomaticamente, esta ideia desta complementaridade deste match perfeito, eu apareço na série como dando um bocado lado mundano ao lado normal das coisas, e sou professor de surf, ou seja, que é o perfect match da protagonista e que dou exatamente a esta série o lado normal, ou seja, o lado mais terreno de toda esta dinâmica sci-fi. Paralelamente vamos, a Teatro Nacional 21, alegremente digo isto, vai levar a cena “O Orlando” da Virgínia Wolf, encenado por mim, o elenco é um elenco de luxo, são oito a todos absolutamente maravilhosa em cena, obviamente as temáticas lógicas associadas a este texto maior da Virgínia Wolf estão na ordem do dia, queremos uma vez mais mexer e remexer nestes temas, a reescrita deste texto, a escrita para cena está a ser feita pela Cláudia Lucas Chéu, temos coproduções com o Teatro Dona Maria II, o Rivoli, Famalicão, Guimarães, Viana do Castelo, Viseu, espero que Águeda também possa ser ou fazer parte deste nosso mapa com “O Orlando” e depois no final do ano vou ter duas longas metragens, uma delas com a Margarida Cardoso, e no início do próximo ano vou ter com o Rodrigo Areias, um realizador, um amigo, que eu adoro respeito e admiro, produção do Paulo Branco, vamos fazer também um filme em janeiro, fevereiro e antes disso com o Marco Paiva e com o Pedro Varela em outubro e novembro, vamos fazer uma série que vai tocar todos os pontos que estivemos aqui a falar, sobre esta inclusão social, esta perspetiva de esbater essas diferenças e estas guetizações que teimam em existir, é um pouco isto.

 

DM:

Um futuro recheado.

 

AJ:

Sim, mas o José Mário Branco dizia que “o futuro é hoje” portanto nada melhor que dizer isso, o futuro é hoje, agora aqui a falar contigo. 

 

DM:

Pegando nas palavras do Albano, esperemos que Águeda possa aparecer várias vezes no seu mapa, pelo menos temos encontro marcado para “O Amante”, assim que a pandemia nos permita.

Albano agradecer imenso em nome do Centro de Arte de Águeda e da Câmara Municipal de Águeda e até breve.

 

AJ:

Ótimo, deixa-me só rematar aqui a nossa conversa, que adorei, que às vezes isto parece que é um dado adquirido mas não é, a importância que centros como o Águeda, o trabalho da Câmara Municipal de Águeda como de Famalicão, outras zonas que referi há pouco, a importância que essas coproduções têm é absolutamente vital. Há uma desestruturação enorme na nossa cultura, no nosso tecido cultural, há uma ausência de pensamento cultural do nosso país e se não fosse esta rede que é gerida por pessoas, que eu acho e que considero brilhantes, atentas, e que partilham esta inquietação dos artistas, se não fosse o trabalho dessas pessoas e toda uma equipa que faz parte, por exemplo, do Centro de Artes de Águeda, nada disto seria possível e quero mesmo fazer questão de deixar aqui um genuíno obrigado por pessoas como tu, como vocês, que fazem equipa do teatro de Águeda, ou seja, todas essas pessoas que compõem esta teia que continuam alimentar este sido cultural com estas com coproduções e continuo a acreditar na fruição artística e na educação pela arte, a todos o nosso obrigado

 

DM:

Muito obrigado mais uma vez, é essa a nossa missão e esperamos sempre continuar com ela.

 

AJ:

Um abraço.

 



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=fDtcYt_3Abs

 

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA

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