EM PALCO COM O GAJO

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EM PALCO COM O GAJO

SINOPSE

Hoje, o CAA está “Em palco com...” João Morais, mais conhecido como O Gajo.

Punk rocker durante 28 anos, O Gajo (ou João Morais) trocou, em 2016, os acordes da guitarra elétrica pela tradicional sonoridade da viola campaniça e desde então já lançou um disco e quatro  EP´s, que completam a coleção “As 4 Estações d´O Gajo”.

Ao longo da conversa, João Morais fala-nos acerca dessa transformação na sua carreira e do seu percurso a solo.
 



Daniel Madeira:

Olá, João Morais, a.k.a: O GAJO, bem-vindo ao nosso auditório, do Centro de Arte de Águeda, vazio em certa parte, na parte física, mas ao mesmo tempo cheio digamos assim.

 

João Morais (A.K.A: O GAJO):

Cheio de vontade.

 

DM:

Cheio de vontade exatamente, cheio de vontade de voltar a receber pessoas…

 

JM:

De retomar.

 

DM:

…De retomar

Então, vou apresentar-te a quem nos está a ver e depois vamos falar um bocadinho sobre ti e sobre a tua carreira.

Depois de 28 anos no circuito Punk Rock, João Morais escolhe em 2016 a viola campaniça para expressar a sua arte.

Este instrumento de raiz tradicional Portuguesa é assim a figura central de um projeto instrumental com referências arábicas e mediterrânicas numa nova linguagem para uma viola antiga, que na sua melhor tradição renasce pelas mãos d’O GAJO.

2017 é o ano do primeiro disco “Longe do Chão” e depois de muitos concertos em Portugal, em 2019 arranca o seu processo de internacionalização atuando em dois dos mais emblemáticos festivais europeus: EUROSONIC (Holanda) e REEPERBAHN (Alemanha).

Em 2019 lança 4 Ep’s: “Rossio”, “Santa Apolónia”, “Cais do Sodré” e “Alcântara-Terra” que em conjunto completam a colecção “As 4 Estações d’O GAJO”.

A viagem parou abruptamente em 2020 quando os planos eram de movimento.

Da paragem forçada nasceu uma colaboração com os músicos Carlos Barreto e José Salgueiro que originará um disco e um espetáculo para 2021.

A navegação solitária continua, num espetáculo intimista que não deixa ninguém indiferente

João, ou O GAJO, és músico desde 1988, e integraste várias bandas de punk rock de referência em Portugal. Corrosão Caótica, Carbon H e Gazua são apenas alguns nomes de bandas das quais fizeste parte. Queres falar-nos um pouco destes anos? Qual o lugar ocupava o punk rock no panorama musical português da época?

 

JM:

Bem tudo começa, portanto em 1988, estava eu no secundário e numa escola artística, na escola artística António Rui, aqui em Lisboa, e realmente essa escola fez toda a diferença em tudo o que aconteceu, portanto, há um antes e depois da António Rui e musicalmente foi onde eu dei o meu mergulho. Nesta altura eu estava mais ligado a música mais pesada, mais música de intervenção e portanto estava com 15 anos, estava ainda a crescer na realidade, estava a entrar nesse mundo, mas mergulhei digamos que de forma bastante profunda nele e portanto durante alguns anos foi isso que fez sentido pra mim, foi sempre gritar alto algumas insatisfações, tinha muito gente à minha volta que estávamos de certa forma sintonizados e é sempre bom estarmos, sentirmos que não estamos isolados, é bom sentir-me que somos uma peça duma máquina maior e eu ali nessa escola senti muito esse impulso que depois durou muito anos, para além obviamente dessa escola, a minha vida continuou com outras coisas, formei-me em design por exemplo, fiz um curso de ourivesaria também, tenho outras coisas ai que entretanto se cruzaram no meu caminho mas a música esteve sempre presente, e talvez porque esse início foi tão importante eu mantive-me ligado à música de cariz mais interventivo e nesse aspeto mais punk rock mais rockeiro e assim foi até há bem pouco tempo atrás, porque fez sentido, mas também houve uma altura que comecei a perceber que já estava com outras referências e não podia estar sempre a dizer as mesmas coisas, quando dizes muitas vezes as mesmas coisas, por muita razão que tenhas, as pessoas deixam de te ouvir de certa forma, e por isso achei que tinha que mudar a fórmula, de forma mais radical e também já estava noutra idade, já se tinham passado quase 30 anos, e eu tinha que fazer um refresh, e aí sintetizei tudo agora até ao projeto de “O GAJO”, onde eu resolvi fazer essa viragem mais radical. 

 

DM:

Estávamos no ano de 2016 certo?

 

JM:

Exato, e também não respondi a uma coisa que perguntaste, que impacto é que esse circuito tinha no panorama nacional na altura. Eu nunca estive muito ligado aquilo que se pode dizer o panorama, porque no fundo sempre me senti parte de nicho, de coisas que na realidade não estavam a acontecer, mais do que estavam. Apesar de tudo, era um circuito que na altura, onde circulava muita gente, talvez porque as redes sociais ainda não existiam, havia sempre um bocado a vontade de participar e tinha que ser de forma presencial, hoje em dia já não é tanto assim, e portanto para mim era isso que fazia sentido, era sair de casa e juntar-me aquele grupo grande de pessoas que se juntavam, fosse no bar, no concerto, no festival, no que fosse, mas pronto sempre neste circuito mais de nicho, mais pesado, mas forte, eu na altura sentia que era forte porque realmente circulava muita gente, ainda hoje circula na realidade, são outros projetos as coisas mudam, mas lá está não tínhamos as redes sociais para ficar fechados em casa, tínhamos que sair à rua para estar com pessoas e nesse momento era isso que fazia sentido pra mim, era reivindicar alguma coisa porque realmente sempre fui um bocado atento ao que se passa à minha volta e achei sempre que devíamos intervir.

 

DM:

Exatamente, e avançando para esse ponto de viragem de que falaste, em 2016, decides procurar um som mais português e surge assim a viola campaniça. E pergunto-te como surge esta vontade de seguir um percurso a solo acompanhado por um instrumento tradicional do Alentejo e que faz parte da cultura e da identidade musical portuguesa?

 

JM:

No fundo foram duas coisas que levaram à construção deste projeto. A primeira foi realmente sentir que com as guitarras elétricas americanas, de uma forma geral, as que eu tinha, as Gibsons, as Fenders, ou mesmo as Ibanez, que são japonesas, elas são todas de fora, portanto têm um som tão universal, estão um pouco por todo lado, que é difícil conseguirmos personalizar o nosso som agarrando numa Fender, que não é impossível claro, cada um tem os seus dedos, o seu talento, mas eu senti muitas dificuldades em ter um som particular, um som que fosse… que transportasse as pessoas que me ouviam para o sítio de onde eu sou, ou para aquilo que eu sou para aquilo que são as minhas referências, e houve um concerto  por acaso que foi marcante nessa altura, que foi o concerto da Anoushka Shankar, ela é filha do Ravi Shankar, que era um dos embaixadores, vá lá, culturais da Índia, com a sua cítara, e ela já viveu a sua vida toda em Londres mas veio cá a tocar, à Gulbenkian, e o facto é que ela continuou a tocar a sua cítara de forma tradicional, um bocadinho inspirada também pelo seu pai que foi o seu mentor, e ela conseguiu transportar-me para as suas origens de certa forma, porque nós fechamos os olhos e aquele som transporta-nos de alguma forma para aquilo que ela é ou para aquilo que era a realidade dela e fui que despoletou a minha ideia de, um instrumento que eu toco tem que ser português, porque se for estrangeiro vai-me transportar para outro sítio qualquer, que não é sítio de onde eu sou, portanto foi assim uma espécie de iluminação, de “tchan”, que devo ter feito uma cara na altura que as pessoas devem ter ficado a pensar, o que é que se passa com este gajo, e pronto essa foi uma das grandes questões, e a outra questão do projeto a solo teve a ver com o facto de eu estar a fazer quase 30 anos de bandas e confesso que não é fácil ter uma banda com tudo aquilo que implica: a gestão de vidas, a gestão de agendas, e apesar de não me ter chateado com ninguém, o que se passou foi que senti que eu não estava a conseguir evoluir porque havia muitos pesos que me estavam a aprender de alguma forma, e portanto tive que fazer o teste, e se  eu fizer isto sozinho, será que consigo chegar mais longe, ou fico no sítio onde estou, e portanto foi assim uma espécie de um ano cheio de revoluções em termos artísticos também daquilo que eu pretendia fazer, o instrumento chegou, e chegou a vontade de tocar sozinho e portanto eu tinha digamos toda liberdade de levar o projeto pronto eu quisesse o projeto, porque não tinha nenhum compincha de banda que me pudesse, sei lá, não diria que seria mau ter o compincha de banda mas realmente ali eu precisava de toda a liberdade para poder circular por onde eu quisesse, e assim se deu então esse mergulho na viola campaniça, que durante uns meses o que fiz foi tocar na sala de ensaios, procurar, foi procurar, foi fazer uma coisa que realmente não fazia há algum muito tempo, que é simplesmente não ter um sentido ,é simplesmente procurar qualquer coisa sem saber o que é que vai sair, gravava muitas vezes coisas que ouvia depois para perceber se faziam sentido ou não, e pronto até que cheguei realmente ali a umas três ou quatro músicas e resolvi candidatar-me a uma noite… como é que eles dizem, daquelas que podes durante 15 minutos…

 

DM:

Um Open mic.

 

JM:

… Exatamente, e fiz isso ali no bar popular, aqui em Alvalade, que eles tinham as quartas-feiras de open mic, e resolvi levar a campaniça e ir lá trocar as três músicas ou quatro que tinha feito, e a partir daí como ainda ouvi dois ou três aplausos lá no fundo achei que valia a pena avançar por este caminho e pronto foi assim.

 

DM:

Fantástico, e a tua ideia de pegar na viola campaniça acaba também por retirá-la aqui um bocadinho do seu contexto mais tradicional não é, há aqui um gesto de re-invenção. Qual é que é importância que atribuis a esses gestos de re-invenção perante a tradição portuguesa e que de alguma forma os descontextualizam e lhes atribuem novos contextos

 

JM:

Aí voltamos um bocado à altura de António Rui, porque realmente nessa altura eu percebi muita coisa, talvez essas ideias que eu percebi nessa altura só as amadurecesse mais tarde, mas nunca quis, nem nunca foi minha intenção criar dentro de um quadrado, ou seja, dentro de algo que já está criado e portanto acho que quando percorremos esta caminhada mais experimental, artística, acho que a tentativa é sempre pormos o pé fora do quadrado, portanto tudo que tenha a ver com a música tradicional não era um caminho que eu procurasse, eu não procurava isso, não era a minha motivação, há muita gente a fazer muita coisa e eu respeito muito trabalho, inspiro-me muitas vezes também nesse trabalho, mas o que saísse daquela viola tinha que ser algo que ainda não tinha sido feita exatamente daquela maneira para fazer sentido nessa altura da minha vida em que eu procurava singularizar um bocado aquilo que estava a fazer, e portanto a música tradicional tem realmente o seu espaço, eu vou conhecendo cada vez mais gente dentro desse mundo, e lá está eu respeito muito as pessoas que com todos os seus projetos vão tentando reinventar um pouco mas não saindo de uma linguagem que é reconhecível, que também nos transporta neste caso para este país, para Portugal, eu respeito muito isso, mas no meu caso tem que ser uma coisa mais contemporânea mais agarrada às referências que eu tenho e que são contemporâneas, são coisas que eu ouço, bandas que ano a tocar agora, e portanto quis fazer algo que ainda não tivesse que aprender uma determinada cartilha, ou seja, eu queria criar a minha própria cartilha, a minha própria linguagem, seja através da afinação da viola, seja através das pequenas alterações que a viola sofreu, tocar com palheta, ou seja, eu não tenho uma regra, e isso é que também foi muito interessante para renovar a minha vontade de tocar, foi recriar tudo isto com uma liberdade imensa, porque se eu for tocar música tradicional se calhar terei que apesar de tudo ter algumas regras para cumprir, nada contra, mas não era a minha motivação.

 

DM:

E falando então da tua cartilha e do teu primeiro álbum, há aqui uma relação certamente. “Longe do chão”, um álbum no qual nos transportes para ambientes e personagens de Lisboa, no website da Rastilho Records podemos ler que o álbum “é um voo sobre nós próprios embalados por uma viola campaniça que nos enche como a maré e nos inunda com sentimentos de naufrágio”

Foi difícil fazer um álbum algo mais silencioso sem o barulho do rock e mais solitário?

 

JM:

Bom em 2017, não foi, pelo contrário, foi fácil,  porque digamos que cansado e talvez um pouco farto mas, mais acima de tudo cansado de distorção e de efeitos, já estava eu, portanto quando eu descubro esta viola parece que se abre assim uma porta, que ainda não estava aberta, naquilo que é a minha existência e abriu-se a porta para um sítio cheio de coisas novas, portanto eu diria que esse disco aparece em muito pouco tempo, foi só preciso trabalhar ali durante três ou quatro meses e de repente tenho um disco pronto porque, ainda hoje o outro de 2019 são 20 músicas e agora já vem outro a seguir, parece que a torneira ainda está aberta, ainda está a correr, as ideias ainda estão a correr, e por isso esse disco de 2017 está muito focado em Lisboa em termos de referências, porque pela primeira eu tenho projecto a solo, posso inspirar esse trabalho naquilo que é a minha realidade específica, se eu tocar com outra pessoa que não seja de Lisboa ele não tenho que levar só com a minha existência não é, também tenho que lhe dar espaço à existência dele, e portanto é uma cidade que eu gosto muito, acho que sou mesmo um espelho também um pouco daquilo que Lisboa representa, das coisas boas e más, ninguém é perfeito, a cidade perfeita, mas eu acho que tem muitas coisas interessantes, acho que é sempre uma cidade boa para visitar e depois tem aqueles pequenos mundos isolados nos seus cantinhos, às vezes nas zonas mais escuras, menos bonitas, personagens, lugares, e por exemplo tenho uma música que é “Uma ginja com ela”, e aquela ginja faz parte da minha existência desde que comecei a beber álcool, ou seja desde os 2 anos (risos), estou a brincar foi uma brincadeira, mas desde os 15 ou sei lá, a primeira vez que eu me lembro de sair com a malta, a ginjinha começou a fazer parte da nossa saída, portanto fazia sentido numa determinada altura ter uma música que trouxesse para o palco e para as pessoas que assistem esse momento da ginja e portanto acho que Lisboa está cheia de pontos inspiradores, para já esse disco foi inspirado em Lisboa e agora já vou tendo outras referências também.

 

DM:

Agora avançando um bocadinho no templo falo de “AS QUATRO ESTAÇÕES DO GAJO” um disco em quatro partes, em quatro EP’s dedicados a quatro estações de comboio de Lisboa: Rossio, Santa Apolónia, Cais do Sodré e Alcântara Terra, que foram lançados também em frente estações do ano. Outra particularidade dos 4 EP’s é que quando se juntarmos as 4 contracapas, completam um puzzle e um poema de José Anjos, que, se não te importares, terei o gosto de citar:

“Desconheço a ciência das coisas imprecisas

Apenas sei,

Pela nuvem que tens sobre ti

Que Deus voltou a fumar”

Queres falar-nos deste projeto e qual foi o processo criativo e oriente e como foram as apresentações em cada estação digamos assim.

 

JM:

É assim, na altura em que eu comecei a programar, vá lá o novo disco, lá está mais uma vez não queria repetir a fórmula e editar mais um disco, queria que fosse qualquer coisa que pudesse ser uma novidade, que eu trouxesse, quanto mais não seja de certa forma musical, porque tive alguns convidados que não tinha tido no primeiro disco, mas o próprio package, lá está a minha formação em design também está sempre misturada com todos este processo de criação musical também, e então pensei, porque não fazer aqui um disco com outro conceito, e tenho as quatro estações do Vivaldi em casa, e cruzei-me com esse disco e realmente eu parei um bocado ali à frente, eu já tinha ideia de fazer algo sobre uma viagem, gosto das viagens de comboio porque são momentos em que nós conseguimos… se formos de carro vamos a conduzir ou não é tão confortável para estar a fazer outras coisas e o comboio dá-nos uma possibilidade de olhar para fora, de ler, conversar, em alguns comboios tem até um barzinho, é um tipo de viagem que eu gosto que eu gosto fazer quando acontece, e portanto quando me cruzo com as quatro estações, fez-se ali um clique, tipo eu poderia fazer as quatro estações d’O GAJO que era, tendo em conta que as quatro estações de Vivaldi são um trabalho muito conhecido, muito relevante na música clássica, isto seria mesmo os quatro estações do Gajo seria uma espécie de quebrar aqui todo este formalismo à volta da música clássica, não é, que é sempre um bocado formal de certa forma, e depois comecei também a magicar um bocado como é que isto iria acontecer, as quatro estações do Vivaldi tem a ver com as estações do ano portanto vou editar um “CDzito” em cada uma das estações e porque não chamar a cada um destes discos uma estação de comboios Lisboa, que é de onde eu parto para o mundo, tendo em conta que sou de cá, sou de Lisboa, e portanto fui procurar quatro estações que fossem mais emblemáticas aqui na cidade, e assim foi, e portanto tudo isto depois começou a criar aqui um conceito que foi aprovado pela aquela equipa com quem eu trabalho e pronto tenho que agradecer muito à Rastilho porque foi uma grande aventura que a Rastilho Records abraçou, mas acho que tem resultado bem, acho que as pessoas ficam curiosas também por ter aquele pacote de quatro discos, são quatro EP’s, no total são 20 músicas, e cada um destes são então a estação do Rossio, a estação de de Stª. Polónia (blá, blá) e portanto a coleção são as quatro estações do Gajo, tinha o conceito criado. Depois foi tentar convencer as infraestruturas de Portugal para nos deixar tocar nas estações em cada um dos dias de lançamento, e conseguimos que eles abraçassem também essa aventura, mas por acaso depois surgiram mais uns concertos e não fiz todos os concertos nas estações, portanto fui a Stª. Apolónia, fui ao Rossio, mas depois tinha um festival marcado no Entroncamento, no museu ferroviário, que é espectacular, tem peças antiquíssimas: carruagens e locomotivas muito antigas, e aquilo é muito interessante de conhecer, e portanto um dos lançamentos acabou por ser lá e fechei este ciclo n’O Ferroviário que é ali no Edifício de Stª. Apolónia e que tem um espaço muito bonito, e portanto chama-se O Ferroviário, e portanto tudo isto teve a ver com este conceito desta estações mas tive que saltar aqui uma dois concertos das estações de comboios porque a logística não era nada fácil, para conseguir fazer as coisas atempadamente e ter a certeza de que tudo estaria bem na hora certa, e pronto, mas foi uma grande aventura e acho que toda a gente que se meteu neste barco quando chegou ao fim foi tipo "já acabou”, quatro discos num ano, quatro lançamentos requer, não parar basicamente, são sempre três meses para cada disco à vontade portanto foi não parar em cada disco durante uma ano.

 

DM:

Agora avançando também nesta tua relação com a poética de José Anjos, voltei fazer uma nova citação:

“o caminho é como o poema

revela-se e auto destrói-se nesse preciso momento

torna-se desnecessário,

irrepetível…”

Portanto é um excerto de um poema do já referido José Anjos que dá o nome à música “O caminho é o poema” do EP “Rossio”. Tendo em conta que grande parte das tuas músicas são instrumentais, como é que surge esta parceria? que mensagem é que está inerente e como é que vez também esta relação com a palavra?

 

JM:

Bom o José aparece um bocado por acaso através das redes sociais, isto foi depois do lançamento do “Donos do chão”, ele ouviu e desafiou-me para fazermos um trabalho conjunto, aqui no espaço em Lisboa, que eu aceitei porque realmente eu não estava tão perto da poesia como isso, nem estava tão perto, nem digo da palavra porque realmente eu ouço muitas bandas que têm a palavra como uma coisa relevante e portanto por esse lado sim, mas a poesia não, não diria uma novidade para mim mas não estava assim muito a par do que se passava, e pronto, e basicamente foi um momento daqueles que muda a nossa vida a partir desse momento também e conhecer o José que foi isso, passei a ter um outro respeito também pela língua portuguesa, porque estar com uma pessoa que realmente tem essa agilidade esse à vontade e também esse respeito pelo português é algo que realmente, eu não estava habituado a isso, e portanto acho que às vezes tratamos muito mal a nossa língua e devíamos ler muito mais porque há muita coisa nos livros, que lá está, que pode fazer a diferença, olha numa altura como esta numa pandemia, em que às vezes precisamos das palavras certas para continuar e para termos a motivação necessária. O José nessa altura foi uma pessoa que entrou na minha vida e no fundo nunca mais saiu, ele continua aqui, temos coisas marcadas, estamos sempre em contacto, e conhecer os textos dele é realmente um exercício que eu recomendo a todos, não é um exercício físico mas é um exercício mental que eu recomendo. o José nessa altura quando falou comigo, preparámos esse concerto e fizemos o momento em que “opá vamos fazer agora aqui qualquer coisa meio improvisado para termos qualquer coisa nova para mostrar no concerto”, e que não era só ele a declamar por cima das minhas músicas e saiu essa, saiu essa quase toda assim de seguida à primeira e ficou logo arrumadinho num canto para sair no disco que iria acontecer em 2019, e portanto é isso eu recomendo muito trabalho dele e ele tem várias edições, agora recentes, que quem puder José Anjos, procurem!

 

DM:

Fica a referência

O novo trabalho de “O GAJO” com data de lançamento a 15 março chama-se “Subterrâneos”, o que é que podemos esperar deste novo disco sabendo que é uma narrativa e um conceito associado ao título e às próprias músicas não é?

 

JM:

Sim, este disco é um filho desta pandemia, completamente, porque longe de mim estaria, em março de 2020 a preparar-me para o novo disco tendo em conta que tinha em dezembro de 2019 acabado de fechar as quatro estações, o tal ano que não parou, quer dizer os anos não param mas naquele caso não houve realmente tempo para respirar muito, e portanto quando são cancelados todos os concertos e quando de repente se percebe que vai parar tudo mesmo e que não é só uma notícia trágica que os telejornais estão a aproveitar para ter audiências, quando realmente se percebe que estamos realmente perante qualquer coisa que vai mudar a nossa vida nos próximos temos a primeira coisa que eu pensei foi medicar-me, e medicar-me quer dizer pegar na viola e a partir daí eu sei que estou bem, onde quer que vá eu sei que estou bem, e portanto comecei a guardar ideias, comecei a compor coisas e a pensar enquanto estiver parado eu voltar a trabalhar portanto não há qualquer hipótese de ficar a pensar no que é que está a passar, e entretanto candidatei-me a um apoio do fundo cultural que houve logo ali em abril, e como consegui uma verba que já me dava para subsistir ali durante três ou quatro meses, era uma verba específica para a criação, era um apoio que foi lançado especificamente para a criação do trabalho artísticos, e esse foi o golpe, tipo ok fixe, acho que vale a pena acreditar que isto é possível agora fazer nesta altura, porque eu também fiquei sem rendimento não é, e portanto começou tudo aí e o nome do disco surge pensando que esses meses, esse primeiros meses nós de repente vimos-nos confrontados com o nosso eu interior, é aquele momento em que percebemos, eu não posso estar com os outros, ok fico comigo, fico comigo mas tem que se calhar de repente estar muito mais tempo comigo do que eu estou habituada estar e o que é que eu vou encontrar quando aprofundar essa relação que tenho de estar vários dias se calhar sozinho, ou no seio familiar, mas não deixa de ser… não temos o tal escape que às vezes temos, de sair e estar com os amigos, viajar o que quer que seja, e esse encontro connosco muitas vezes não é um encontro feliz, é um encontro triste, é um encontro às vezes com muitas frustrações, muitas coisas acumuladas, isso basta ver as notícias para perceber com um aumento da violência doméstica, ou das medicações, mesma a questão da relação com as crianças que possivelmente até a nível psicológico estão afetadas, e muitas vezes não tem a ver diretamente com elas, é o ambiente que se cria à volta delas que não beneficia o seu crescimento, e portanto há muita luta que de repente se gera aí e o subterrâneos são isso mesmo, é esses mundo que nós fomos encontrar dentro de nós próprios, dentro do nosso seio, daquilo que nós achávamos que era saudável e que se calhar não era tão saudável, noutros casos ou a felicidade de encontrar um mundo que afinal é mesmo perfeito é mesmo bom, porque nem todos encontrámos coisas negativas não é, também encontramos coisas positivas isto tudo, e pronto a partir daí tinha o conceito, tinha três ou quatro meses garantidos de subsistência, portanto foi começar a compor, começar a trabalhar neste disco que vai ser lançado já, está quase, está quase aí. O que eu quis que fosse diferente relativamente ao trabalho anterior e isto lá está falando daquilo quadradinho onde eu sinto sempre os pés a ferver e tenho que saltar para fora, o que aconteceu foi trabalhar com mais dois músicos, achei que estava na hora de fazer o teste de trabalhar em trio e voltar, não digo ao conceito banda porque continua a ser “O GAJO”, não é, mas trabalhar com dois músicos e aí é que a coisa de repente explode para uma coisa que era impensável pra mim sequer nesta fase, que era conseguir ter a oportunidade de trabalhar com o Carlos Barreto e com o José Salgueiro, se calhar também devido à pandemia tinham mais tempo livre e eu acabei por aproveitar isso e foi espectacular, não tenho sequer bem palavras para descrever como é que foram esses meses de composição, de trabalho com eles, a disponibilidade que eles têm, a generosidade, eles são exímios músicos, tecnicamente, em todos os níveis, digamos que me senti assim um miúdo assim numa loja qualquer daquelas… sempre muito espantado com tudo o que estava a passar, mas pronto era a realidade eu abracei-a e agarrei-a com unhas e dentes e acho que fiz um trabalho fixe, que eles gostaram e que portanto eles também deram o seu contributo forte, alto, a um grande nível, e acho que este trabalho era um trabalho que eu teria pensado talvez fazer daqui uns anos, não já, e estou muito feliz porque correu tudo bem, arranjamos também um técnico, produtor não diria, mas um técnico que soube ir buscar os melhores sons para tudo, que é o Cajó, o Carlos Vales, e pronto tínhamos o estúdio certo, tínhamos as pessoas certas, correu tudo assim bem, houve sempre bom ambiente e eu estou muito feliz, esta pandemia acabou por, ok teve todas estas consequências que nós conhecemos, mas acho que consegui aquilo que no início tinha planeado que era tentar fazer desta coisa negativa algo positivo, tirar daqui no fundo, no final desta caminhada perceber que tinha consegui transformar isso numa coisa boa.

 

DM:

E diz-nos no teu próximo concerto aqui no Centro de Artes de Águeda, que será também o primeiro concerto aqui no CAA, que para já a data ainda se encontro um bocadinho indefinida, devido a este contexto pandémico, já poderemos presenciar esse álbum, o que é que nos espera esse concerto?

 

 JM:

O concerto por não ser em trio, eu tenho uma espécie de versão, há ali duas ou três músicas que eu consigo traduzir para o meu formato a solo, e acho que são momentos fortes, porque acho que os temas estão particularmente envolventes e eu também depois em termos cénicos tento que isso seja mais notado porque, por exemplo, há um tema que às vezes eu gosto de tocar e de sair do espaço onde eu estou, não digo para o meio das pessoas atenção, isso era bom se fosse noutra altura mas ir para uma zona onde se consiga criar uma intimidade maior com um público que estiver presente, e acho que são sempre momentos que pelo menos até aqui, porque eu já os toquei ao vivo, não tive muitas oportunidades, mas as vezes que aconteceu, correu muito bem portanto alguma coisa irá acontecer dos “Subterrâneos” nesse concerto mas claro, ter o Barreto e o Salgueiro em palco será sempre, se calhar numa outra altura, será sempre também um impacto forte, mas o projeto continua, acho eu, a ter a sua força, a ter a tua razão de ser neste momentos a solo, porque a viola é que é grande mestre de cerimónias, o seu som, a sua envolvência e ela está lá, em pleno, e portanto acho que é sem

 

DM:

João, falando em viola, convidava-te a pegar nessa mesma viola e a poderes complementar esta agradável conversa.

 

JM:

Ok vamos então ver se isto soa a alguma coisa.

 

(Atuação musical)

 

DM:

Fantástico

 

JM:

Isto é intenso, mas pronto olha esta música está no novo disco, neste caso tem também uma proporção e um contrabaixo, esta é uma versão só a viola, chama-se Morfeu, já agora morreu eu deus no sonho, e portanto acho que é sempre uma boa referência, se bem que não podemos sonhar também temos que acreditar. Muito obrigado.

 

DM:

Muito obrigado nós, João, A.K.A O GAJO, por teres estado connosco em palco, e esperemos que a pandemia acelere a fuga, para que possamos encontrar-nos aqui, presencialmente.

 

JM:

Muito obrigado também pelo vosso convite, espero que seja presencial o nosso encontro. Até lá.

 

DM:

Esperamos todos. Muito obrigado!
 



Entrevista completa em:

https://www.youtube.com/watch?v=tKK0m_tEY04&t=1643s

 

FICHA ARTÍSTICA

Créditos fotográficos

CAA

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